O Método Rabínico das Parábolas
As parábolas eram a forma didática mais empregada no ministério de Jesus.[1] No entanto, poucos cristãos reconhecem que o método rabínico das parábolas era o mais eficaz e mais utilizado pelos demais rabinos contemporâneos de Jesus. Com efeito, as parábolas são a evidência mais forte da identidade judaica do Messias.
O segundo fato igualmente desconhecido é que o uso de parábolas é a prova irrefutável de que Jesus ensinava em hebraico. Não obstante o esforço em se reconstruir as parábolas em aramaico nas últimas décadas, muitos teólogos simplesmente ignoram o fato de que não há nenhuma só parábola em aramaico, nem em grego, nem em latim. Todas estão em hebraico e a literatura rabínica abrange literalmente milhares delas.
O terceiro fato é que muitas dessas parábolas são semelhantes, pois era comum no judaísmo não inventar histórias de cunho didático para ensinar a Torá, mas reinterpretar muitas delas, aplicando-se lições práticas para enfatizar os mandamentos. Isso fazia parte da tradição oral, passada de pai para filho desde o tempo de Moisés. A meta da parábola não era destacar a criatividade do rabino que a contava, mas fazer com que o ouvinte se voltasse para a lição moral de seu ensino.
Nos Evangelhos de Mateus e Lucas, Jesus ensina uma pequena parábola cuja lição abrangia um conceito bem usado no judaísmo, desde o tempo de Moisés, que consistia em ouvir e praticar. O verbo ouvir — לשמוע (lishmoa) — implica obediência. O verbo para guardar um mandamento — לשמור (lishmor) — abrange o mesmo significado e é semelhante foneticamente, embora de diferente raiz. Quem ouve também obedece e guarda, e vice-versa.
A expressão tão usada por Jesus — “aquele que tem ouvidos ouça” — contém hebraísmo e está ligado a esse conceito de ouvir no sentido de obedecer, praticando o que se ouve. Muitos dos seguidores de Jesus simplesmente ouviam suas mensagens, mas não o obedeciam. Ou, como se diz no português popular, deixavam sua palavra entrar por um ouvido e sair pelo outro. Essa recusa em obedecer a seus mandamentos permanece ainda hoje por muitos que alegam ser seus seguidores.

MESMA METÁFORA E MESMO OBJETIVO
É nesse contexto que Yeshua conta uma breve parábola, não sem antes confrontar os que o ouvem, mas não o obedecem. “Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?” (Lucas 6:46). Em seguida, Ele assemelha ao que ouve suas palavras e as pratica àquele que colocou seus alicerces sobre a rocha antes de construir sua casa. Quando vieram as intempéries, ela permaneceu inabalável. Por outro lado, Ele assemelha ao que o ouve e não pratica ao que ergue sua casa sem alicerces. No primeiro vendaval, ela cai e é completamente destruída (Mt. 7:24-27; Lc. 6:47-49).
A literatura rabínica clássica contém uma parábola exatamente com a mesma metáfora.
“Uma pessoa que praticou boas ações e estudou muito a Torá, como ela é? Como alguém que constrói colocando primeiro pedras no chão e depois tijolos por cima. Mesmo que venha uma enchente, a construção permanecerá firme e não será levada pela correnteza. E quanto à pessoa que não praticou boas ações, mas estudou a Torá? É como alguém que constrói colocando primeiro os tijolos e depois as pedras por cima. Mesmo que caia um pouco de água, a construção desmoronará imediatamente.”[2]
A história usa a mesma figura de casa construída sobre o firme fundamento das pedras que simbolizam aqui os fundamentos da Torá. A casa daquele que ouve seus mandamentos e os pratica permanecerá firme nas adversidades. A casa de quem ouve os mandamentos, mas não os obedece, mesmo nas pequenas provações, desmoronará. Não apenas a metáfora usada é a mesma de Yeshua, mas o objetivo é o mesmo. Ambas as parábolas enfatizam a necessidade de ouvir e praticar.
OUVIR E PRATICAR
Ambas as parábolas fazem referência a um debate antigo sobre ouvir a Palavra de Deus (estudo da Torá) e praticar. Dentro dessa discussão, destaca-se a passagem: “Tudo o que o Senhor falou nós faremos e obedeceremos” (Êxodo 24:7). O verbo traduzido por obedeceremos é, na verdade, ouviremos (nishma) no original. Tal verso intrigou os sábios antigos que se perguntavam como é possível fazer algo antes de ouvir. Essa questão exemplificava a divergência de opiniões sobre o que era mais importante: estudar a palavra de Deus ou praticá-la.
Debates desse tipo, não apenas nessa questão, mas em muitas outras é o que enriqueceu o judaísmo ao longo dos séculos. Nesse ponto, em particular, Yeshua representa a opinião dos que punham forte ênfase no fazer ou praticar a Palavra de Deus como prioridade, sem, contudo, negligenciar o seu estudo e conhecimento. Isso está inerente em todos seus ensinos pelos Evangelhos. Podemos destacar alguns exemplos como a parábola do Bom Samaritano. Este talvez não conhecesse a Torá como o levita ou o sacerdote, mencionados na história, mas a praticou fielmente ao tratar seu próximo com amor, conforme ordenado em Levítico 19:18.

Outro exemplo claro desse posicionamento de Yeshua está na exortação veemente que faz em relação ao exemplo de alguns fariseus: “Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam (Mateus 23:3). Esse mesmo alerta é válido ainda hoje. Pregar a Palavra e não praticar não é apenas pura hipocrisia, mas algo condenável e reprovável aos olhos do Senhor. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça!
AS PEDRAS E A ROCHA
Yeshua contou outras parábolas semelhantes à tradição rabínica, nas quais empregava o mesmo método pedagógico dos rabinos de seu tempo. Voltando à parábola da casa edificada sobre as pedras, da tradição oral, e a da casa edificada sobre a rocha, de Yeshua, surge uma questão. Qual das duas veio primeiro e foi adaptada posteriormente? Bem, a redação da literatura rabínica clássica se deu nos séculos iniciais da era cristã, porém, a tradição é muito anterior a isso. O texto é tardio, mas o conteúdo é antigo. Não cabe discutir quem veio primeiro; é uma pergunta inapropriada quando se trata de uma cultura baseada na tradição oral que durou séculos até ser redigida.
Há uma probabilidade de que Jesus tenha conhecido essa parábola antes mesmo de iniciar seu ministério. Isso, de modo algum, diminui a eficácia de seu ensino. Ao contrário, Ele a amplifica ao usar imagens já testadas pedagogicamente. Se o público já conhecia essa metáfora, o impacto é maior, pois Ele ativa o repertório dos ouvintes e introduz adaptações na história para produzir o efeito desejado que sempre culmina com uma lição moral. E aqui entra uma diferença sutil, porém, relevante nas duas parábolas.

A da tradição rabínica usa a figura de pedras como alicerce para a casa bem edificada, enquanto Yeshua usa a figura de uma rocha. Na tradição, as pedras representam os fundamentos sólidos da Torá, incluindo as boas ações daquele que a estuda. Nas palavras de Yeshua, a rocha aludida certamente faz referência implícita a Ele mesmo. Ao usar essa variação em uma parábola provavelmente já consagrada entre o povo judeu, Yeshua teria escolhido uma forma genial de afirmar que Ele e a Torá são a mesma coisa — a Palavra viva de Deus!
Ao contrário dos filósofos gregos que inovavam a seu bel-prazer, Yeshua, como Rabino itinerante, reinterpretava o que já era conhecido, atribuindo um peso especial ao que desejava ensinar sobre o caráter divino. Por exemplo, Ele faz isso repetidamente ao dar a interpretação correta de diversos mandamentos em sua mensagem mais conhecida — o Sermão do Monte.
Tanto as parábolas como outros métodos por Ele empregados eram os mesmos dos demais rabinos de seu tempo. Eram também uma forma do Senhor dialogar com seu público por meio das raízes judaicas em que estavam inseridos, dando-lhes uma nova perspectiva sobre o Reino do céu.
[1] Há mais ensino sobre o emprego das parábolas por Jesus, bem como outros métodos rabínicos usados por Ele, no capítulo 4 do vol. 1 de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo.
[2] Avot DeRabbi Natan, cap. 24 (tradução nossa).
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