Guerra à Vista e o Clamor pela Liberdade no Irã
Desde a guerra entre Irã e Israel, em junho do ano passado, houve um frágil cessar-fogo que soa mais como um intervalo entre rounds de uma luta livre. Ambos os países continuam se preparando para o que pode vir a ser um conflito decisivo. No Irã, a pressão não é apenas externa, mas também interna, o que pode levar a um colapso do regime no curto ou médio prazo. O prenúncio de outra guerra à vista e o clamor pela liberdade no Irã contrastam com os laços milenares de amizade entre os povos judeu e persa e constituem o cenário de um ano que começou agitado e pode terminar com marcas profundas que alterem a geopolítica do Oriente Médio.
Após o conflito de doze dias entre Irã e Israel, em 2025, os quais contou com um ataque poderoso dos EUA contra as instalações nucleares do regime de Teerã, o cessar-fogo deveria servir de período de realinhamento estratégico e reconstrução interna, incluindo a retomada da economia. A guerra não apenas ceifa vidas, mas causa todo tipo de sofrimento físico, emocional e econômico. Neste ponto, tanto Israel quanto Irã precisam se reestabelecer.
Assistimos, quase que ao vivo, aos ataques israelenses e norte-americanos contra a infraestrutura do regime iraniano que o fez regredir muitos anos em seu programa nuclear e causou danos extremos em suas instalações de defesa aérea, comando e controle, e logística militar. O povo iraniano nunca foi alvo dos ataques de Israel. Por outro lado, os mísseis balísticos lançados do Irã visavam sempre cidades e bairros lotados de civis e, vários deles, atingiram seus alvos friamente, causando morte e destruição.

UMA NOVA GUERRA?
Os desdobramentos das últimas semanas e dias mostram uma tensão crescente entre Irã e Israel, além dos EUA que estão em fase de negociação para tentar distender a crise com o regime dos aiatolás. O Irã não se conforma em desistir de seu programa nuclear, o que é uma ameaça para Israel e para o mundo, no qual nunca escondeu seu intento de usar armas nucleares contra Israel. Além disso, a estratégia iraniana do anel de fogo apenas reafirma a eterna luta contra Amaleque.
Acrescente-se à ameaça nuclear os mísseis balísticos de carga convencional que se mostraram uma ameaça concreta contra o Estado judeu no último conflito. Embora centenas tenham sido destruídos por Israel, desde o cessar-fogo, ao que parece, o Irã investiu muito nos últimos meses para reestruturar sua defesa aérea e reestabelecer sua capacidade de lançamento de mísseis balísticos, tendo ajuda logística e militar da Rússia e da China.
A fim de estarem prontos para o uso da força, caso falhem as negociações, os EUA deslocaram para a região, ao longo das últimas semanas, um maciço número de meios e tropas, incluindo o grupamento operativo de navios de guerra nucleado no porta-aviões USS Abraham Lincoln. Outro grupo-tarefa nucleado no porta-aviões USS Gerald R. Ford se encontra em trânsito, de modo que o efetivo das forças na região somará, em breve, o equivalente a um terço do inventário da US Navy, a maior marinha do mundo.
Este segundo round entre Irã x Israel e EUA, de modo direto, tendo Rússia e China envolvidos indiretamente com apoio logístico a Teerã, será bem diferente do primeiro, pois o teatro de operações terá grande parte da área marítima, envolvendo diversas operações navais. O calcanhar de Aquiles desse cenário é certamente o estreito de Ormuz, por onde transita entre 25% e 30% de todo o petróleo comercializado no mundo.
Há alguns dias, o Irã anunciou que, se for atacado desta vez, fecharia o estreito. Isso por si seria uma tragédia econômica, pois dispararia o preço do barril para três ou quatro vezes mais, como ocorreu na crise de 1973, afetando toda a economia global. Por outro lado, a garantia de navegação nesse estreito faz parte da missão direta da 5ª esquadra da US Navy, sediada em Bahrein. Hoje mesmo foi noticiado na televisão estatal controlada pelo regime um plano de interditar o estreito pela marinha iraniana, o que soa como ameaça aberta à navegação e ao comércio do mundo inteiro. As consequências dessa interdição são imprevisíveis.

AUTÊNTICO GENOCÍDIO
O resultado da guerra passada teve um efeito catastrófico sobre a economia do Irã, pois fez com que a inflação disparasse, tornando-se um fardo insuportável para o povo iraniano. Este é um povo duramente castigado que vem sendo oprimido há quase meio século, desde a Revolução Islâmica de 1979, quando os aiatolás derrubaram o regime do xá. O resultado dessa insatisfação acumulada foi a manifestação direta dos cidadãos, em diversas cidades do país, desde o fim de dezembro, o que envolveu dezenas de milhares de manifestantes contrários ao regime que foram lutar por sua liberdade em todos os níveis.
A resposta do regime foi uma das mais repressivas da história contemporânea. Nos dias 8 e 9 de janeiro, o aiatolá Khamenei determinou à sua milícia paramilitar — Basij — a se contrapor atirando para matar seu próprio povo “sem compaixão”. O massacre foi enorme e as inteligências de Israel e dos EUA ainda trabalham nas estimativas que estão na ordem de dezenas de milhares de assassinatos a sangue frio; cidadãos mortos cruelmente apenas por estarem protestando nas ruas contra o regime que os oprime. As fontes do próprio governo admitiram que houve cerca de cinco mil mortos, aos quais chamou de terroristas, mas é óbvio que o número é muito superior. Parece que nem o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, em Pequim, passou perto disso; um autêntico genocídio.
O regime derrubou a internet do país, mas não antes de diversos vídeos serem transmitidos por cidadãos comuns nas redes sociais (alguns ainda estão disponíveis no YouTube/Instagram), para evitar que as provas de seus crimes contra a humanidade fossem veiculadas para o exterior. Algumas imagens chocantes mostram centenas de sacos pretos nos estacionamentos de diversos hospitais do país, aguardando serem recolhidos por parentes para serem sepultados.

UMA LONGA AMIZADE
A despeito do grande inimigo de Israel hoje ser o regime do Irã, cuja “cabeça da serpente” é o próprio aiatolá, segundo o povo iraniano, há uma enorme estima e simpatia dos iranianos pelo povo judeu. Poucos sabem, mas Irã e Israel são povos que historicamente têm grandes laços de amizade entre si, apenas interrompida após a revolução dos aiatolás.
A revolução, porém, não tirou o afeto e a simpatia do povo persa por Israel. E a prova disso são as milhares de mensagens de apoio de contas de rede social de iranianos a Israel, inclusive durante a guerra do ano passado. Arrisco a afirmar que Netanyahu tem mais apoio entre o povo iraniano do que dentro de Israel. Basta ver a conta em persa do Instagram do Ministério das Relações Exteriores de Israel, com mais de dois milhões de seguidores de fala farsi e simpatizantes ao povo judeu.
Essa mostra de amizade e simpatia é recíproca por parte dos israelenses que têm o povo persa em alta consideração. O motivo é a eterna gratidão que nutrem por Ciro, rei da Pérsia antiga, que decretou o regresso dos judeus da diáspora para retornarem a Jerusalém e reconstruírem o Templo. Em sua obra Antiguidades Judaicas, Flávio Josefo afirma que Ciro, ao tomar conhecimento da profecia de Isaías a seu respeito, chamando-o pelo nome, escrita quase duzentos anos antes, ficou maravilhado e decidiu decretar o retorno dos judeus do exílio.
“Que digo de Ciro: É meu pastor, e cumprirá tudo o que me apraz, dizendo também a Jerusalém: Tu serás edificada; e ao templo: Tu serás fundado” (Isaías 44:28).
“Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor Deus dos céus me deu todos os reinos da terra, e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá. Quem há entre vós, de todo o seu povo, seja seu Deus com ele, e suba a Jerusalém, que está em Judá, e edifique a casa do Senhor Deus de Israel (ele é o Deus) que está em Jerusalém” (Esdras 1:2,3).
UM FUTURO PROMISSOR
Além disso, Israel e Irã são unidos pela história da rainha Ester e Mordechai, primos judeus que foram usados por Deus para conceder grande livramento a seu povo, marcando todo o reino da Pérsia em todas suas províncias e dando origem à milenar Festa de Purim. Prova desse reconhecimento mútuo é o monumento do túmulo da rainha Ester e de Mordechai, erguido durante o império persa na cidade de Hamadã, no Irã, que permanece até hoje e é um dos raros locais sagrados do judaísmo fora de Israel, bem como símbolo da amizade histórica entre judeus e persas.
Por esses laços históricos de união e afeto, os iranianos, em sua luta pela liberdade, têm apoio total e irrestrito dos judeus do mundo inteiro. O desejo de um povo livre da ditadura atual do Irã é compartilhado por todos os espectros sociais, políticos e religiosos dentro de Israel. Um Irã livre é um prenúncio de um futuro promissor para as duas nações e representa o reatar de uma amizade milenar. Esperamos que esse tempo chegue logo, b’ezrat HaShem.

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