Deixa Meu Povo Ir
A origem de Pesach está na história da libertação do Egito, quando Israel foi livre do jugo da escravidão e nasceu como nação perante Deus. Este mesmo Deus, que se revelou a Moisés na sarça ardente no deserto de Midiã, mandou dizer a faraó: “Deixa meu povo ir”. Este é o ponto de partida para que o povo, escravizado há mais de quatrocentos anos, compreendesse que seu momento de liberdade finalmente chegara. O que, porém, significa de fato essa liberdade?
A frase “Deixa meu povo ir” é bem conhecida dentro e fora do judaísmo e do cristianismo. Infelizmente, é citada muitas vezes fora de contexto. Não somente isso, mas é frequentemente citada pela metade. Vejamos a frase completa: “E falou o SENHOR a Moisés: Vai a Faraó, e dize-lhe: Assim diz o SENHOR: Deixa o meu povo ir, para que me sirva” (Êxodo 8:1). A ordem de Deus a faraó era não apenas libertar o povo, mas que este fosse livre para servi-lo como povo santo e separado dentre os povos da Terra. A liberdade tinha um propósito: servir a Deus.
O PERIGO DO LIVRE ARBÍTRIO
Quando Deus disse a faraó “Deixa meu povo ir” estava simplesmente comunicando que Ele é quem liberta em última instância. Deus não precisava da autorização de faraó, mas envia Moisés para dar-lhe o aviso por dois motivos. Primeiro, Deus não passa por cima da autoridade que Ele mesmo estabeleceu. Se tal autoridade agir em rebeldia contra seus mandamentos, Ele a julgará mais cedo ou mais tarde. E, segundo, porque o próprio faraó estava sendo provado. Entretanto, em vez de se humilhar e obedecer, ele faz exatamente o contrário, ao responder: “Quem é o Senhor para que eu ouça a sua voz, e deixe ir a Israel? Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei Israel partir” (Êx. 5:2).
A arrogância e soberba demonstradas nessas palavras foram o início de sua queda. Deus já conhecia a resposta, porém, dá-lhe várias oportunidades de corrigir seu rumo e agir em obediência, liberando Israel. Seu coração, no entanto, é incorrigível e seu orgulho o impede de ver a mão de Deus em cada praga derramada sobre o Egito, trazendo aflição e sofrimento a seu povo. Quando recebe a ordem de voltar a faraó, Deus diz a Moisés que endurecerá seu coração. Na verdade, o que o Senhor faz é dar mais liberdade ainda para o faraó decidir. O livre arbítrio é uma dádiva de Deus ao homem e faraó não é diferente de ninguém. Por outro lado, ele prefere se inflar em seu ego e enganar seu próprio coração ao achar que pode ser maior que o Deus de Israel. Infelizmente, faraó não é o único a pensar assim.
Faraó faz péssimo uso do livre arbítrio que recebera, usando-o para oprimir um povo estrangeiro que já era escravo em sua terra, ao determinar que façam tijolos sem palha. Achava que castigando o povo escolhido estaria punindo o próprio Deus. A dureza de seu coração e a cegueira de seu orgulho o impediam de ver que estava atraindo o juízo para si e para seu povo. Faraó descobriria da pior maneira o resultado de se levantar contra o Todo-Poderoso. Assim ocorre com todo aquele que, investido de algum grau de autoridade, se levanta contra seu semelhante para cometer todo tipo de opressão, crueldade e injustiça. A História comprova que sua queda será inevitável e vergonhosa perante o Altíssimo.

RECLINADOS À MESA
A saída de Israel do Egito se deu após a praga que ceifou a vida de todos os primogênitos egípcios, na noite de 15 de Nisan. Nisan é o cabeça dos meses (Êx. 12:1). É quando Deus manda seu povo zerar a contagem e iniciar uma vida nova. Seguindo-se a Hagadah que é uma espécie de manual de instruções para o seder de Pesach, ou guia litúrgico, a longa refeição se inicia com a pergunta: Ma nishtaná halaila hazeh? — Por que esta noite é diferente das outras?
Esta pergunta é o ponto de partida para se iniciar a longa narrativa do Êxodo e tem o propósito de educar as crianças acerca da história da criação de Israel como nação. Entretanto, é feita também para os adultos, mesmo nos lares em que não haja crianças. Ela se desdobra em quatro perguntas e cada uma delas traz consigo uma resposta que desencadeia mais eventos que contam a saída do Egito e a peregrinação pelo Sinai, uma história dos milagres de como Deus libertou seu povo com mão forte e braço estendido.
A quarta pergunta é “por que comemos reclinados nesta noite?” Perguntar isso hoje parece não fazer muito sentido, uma vez que comemos sentados em cadeiras em volta da mesa, eretos, embora à vontade. Porém, fazia muito sentido na antiguidade, quando as pessoas comiam sobre tapetes, sentadas no chão (várias culturas ainda o fazem). Isso ocorre principalmente no triclínio, a mesa greco-romana usada por Yeshua em seu último seder.[1]A resposta para essa pergunta é: Porque comemoramos nossa liberdade reclinando-nos em almofadas como a realeza.
Em outras palavras, um escravo não comia reclinado sobre almofadas, mas uma pessoa livre sim. E este é o ponto central de Pesach: um povo que viveu na escravidão, por mais de quatrocentos anos, agora é chamado para ser livre. Quem os liberta é ninguém menos que Adonai Tzevaot — o Senhor dos Exércitos. Comer reclinado à mesa é uma ordenança em Pesach. Passar horas comendo e ouvindo a Hagadah é não apenas uma ordenança, mas um privilégio desfrutado apenas por pessoas livres.

LIBERDADE X ESCRAVIDÃO
A liberdade é a condição com a qual Adão foi criado por Deus e, consequentemente, todos nós. Ela tem sido cantada em versos poéticos e exaltada em cantos líricos desde tempos imemoriais e é um dos valores mais fortes da humanidade, independentemente de cultura, raça ou credo. Por outro lado, o inimigo de nossas almas trabalha desde o princípio da criação do homem para roubá-la e destruí-la, escravizando a descendência de Adão, por intermédio do pecado.
O pecado é um ato voluntário do homem para se afastar de Deus. Ao cometê-lo, em flagrante transgressão às leis divinas, ele concede permissão e legalidade ao inimigo (HaSatan) para algemá-lo e, a partir de então, viver escravizado. O interessante e que também podemos chamar de paradoxo é que o homem escolhe pecar justamente porque tem liberdade para isso. Ainda assim, Deus não retira sua liberdade. Ao contrário, ele a fortalece (como fez com faraó) e nisso se baseia o princípio do livre arbítrio. Somos livres para escolher o que quisermos, porém, prestaremos conta de cada escolha, ação, palavra e até pensamento. Toda liberdade é acompanhada de responsabilidade.
“Luta pela liberdade” é uma frase que se tornou praticamente um mote em nosso tempo, diante de regimes autoritários e opressores que ameaçam as sociedades modernas de nosso país e do mundo. Na verdade, porém, essa é uma luta muito antiga e sua origem está na eterna luta do bem contra o mal, do Reino de Deus contra o reino das trevas. Deus ama a liberdade; satanás a odeia e busca roubá-la do homem em todo o tempo. E sua única forma de conseguir êxito é por meio do pecado. É aí que entra em cena o Filho do Homem, encarnado na humanidade para livrá-la do pecado e, como resultado, torná-la livre. “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). Não há outra maneira de ser livre que não seja pelo Filho.

FIRMES NA LIBERDADE
Voltando a Pesach e à história do Êxodo, é incrível pensar que, por diversas vezes, o povo em peregrinação no Sinai, mesmo após ver todos os milagres que o Senhor fizera para tirá-lo do Egito, quis voltar à terra de sua escravidão, como se ser escravo para ter um bocado de comida valesse mais que a liberdade que Deus lhe concedera. A analogia é automática. Muitos que receberam o sacrifício redentor de Yeshua preferem tornar ao Egito (velha vida) e serem escravos do pecado, em vez de usufruírem da liberdade que dele receberam.
É nesse contexto que o rabino Paulo (Rav Shaul) escreve: “Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão” (Gálatas 5:1). Esta palavra é para todos que, um dia, experimentaram a extraordinária e incomparável liberdade que temos em Yeshua. Paulo faz menção a uma liberdade bem maior que a física, tão almejada pelo povo no Egito. Há multidões livres fisicamente que vivem acorrentadas ao trabalho, ao medo, à mágoa, ao pecado e nunca alcançarão o propósito para o qual foram geradas.
Qualquer liberdade, seja ela física, financeira, social ou política, sem o devido serviço a Deus não tem propósito e leva à confusão. É como um barco à deriva no oceano, sem rumo e sem perspectiva de destino. Pesach é conhecida como zman cheirutenu — tempo de nossa liberdade — e é a ocasião propícia para refletirmos na verdadeira liberdade que recebemos em Yeshua e o que temos feito com ela, pois, em breve, iremos prestar contas a Ele a respeito.
“Deixa meu povo ir” é um passo importante, mas não é tudo. Deus não nos fez livres como um fim em si mesmo. Ele nos tirou do Egito, libertou-nos do jugo de faraó e das obras das trevas a fim de que pudéssemos servi-lo de bom grado, voluntariamente, com alegria e devoção, assim como servir ao próximo, com os dons, talentos e dádivas que nos concedeu. Somente assim alcançaremos seu propósito e seu destino projetado e firmado para cada um em nossa jornada terrena. Esse é o verdadeiro motivo de sermos um povo livre.
[1] Para saber mais sobre as lições do triclínio usado por Yeshua e seus discípulos em seu último seder, ver o capítulo 6 do volume 1 de A Oliveira Natural.
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