Votos e Juramentos
No estudo deste mês, volto a falar de um tema muito importante, mas pouco conhecido. Com base na língua sagrada original, o hebraico bíblico, veremos a definição para votos e juramentos, além de conhecer o significado da palavra precipitada.
Há pouco mais de dois anos, publiquei aqui no blog O Poder de um Voto. Como eu mesmo acabara de cumprir um dos votos mais importantes de minha vida, achei pertinente ensinar sobre o tema. O interesse despertado foi muito além do que imaginava e o artigo ultrapassou rapidamente 20 mil acessos. Ainda hoje recebo mensagens de pessoas que foram abençoadas por ele, o que glorifica sobremaneira a Deus. Então, vamos expandir um pouco mais o conhecimento sobre esse tema tão relevante nas Escrituras.
Em Números 30, a Torá aborda a questão de votos e juramentos a Deus. Pela resistência em lidar com o assunto, ou falta de conhecimento, incluindo as palavras de Yeshua sobre juramentos, esse ainda é um tema pouco compreendido em geral. Pior que isso, muitas vezes é ensinado de modo deturpado, acarretando danos no corpo do Messias. Nesse capítulo, há três palavras no original para se referir a votos e juramentos que nos permitem estabelecer uma abordagem característica para cada uma delas.
As palavras voto e juramento aparecem juntas em Números 30:2, mas possuem a mesma consequência e exigência de cumprimento. “Quando um homem fizer um voto ao Senhor, ou um juramento, impondo restrições a si próprio, não violará a sua palavra; segundo tudo aquilo que sair de sua boca, fará”. Uma tradução mais literal ficaria assim: “Quando um homem fizer um voto ao Senhor, ou um juramento, amarrando a sua alma (…)”. Isso mostra, logo de início, a seriedade de um voto ou juramento perante Deus.

DIFERENCIANDO VOTO DE JURAMENTO
O voto bem como o juramento são ordenanças dadas por Deus a Moisés e, portanto, instrumentos legítimos no relacionamento para com Deus quando executados dentro do contexto apropriado. O voto (neder) é uma restrição imposta a si mesmo por quem vota. É a partir dessa restrição autoimposta que a pessoa “amarra sua alma” (lesor al hanefesh). O verbo lesor é usado ainda hoje no hebraico moderno e possui significado semelhante que é aprisionar, proibir, banir. Quando alguém se autoimpõe uma restrição decorrente de um voto, essa pessoa não apenas se restringe, mas aprisiona sua alma perante Deus. Pode-se dizer que ela fica refém de Deus até que cumpra seu voto, sem nenhum exagero.
O Antigo Testamento está repleto de votos que vão de pessoas simples até reis. É uma atitude voluntária e decisiva de quem vota para com Deus. No Novo Testamento, encontramos Paulo (Rav Shaul) cumprindo um voto em Cencreia, onde raspou a cabeça (At. 18:18). Certamente, esse era um voto de nazireu, detalhado e preconizado pela Torá no capítulo 6 de Números. O simples cumprimento desse voto por Paulo derruba as falsas alegações de que ele descumpria a Torá ou pregava de forma contrária a ela.[1] De modo semelhante, encontramos alguns judeus messiânicos cumprindo o mesmo voto de nazireu, tendo também a participação de Paulo, em Atos 21:23-26.
Enquanto o voto é uma obrigação assumida perante Deus ligada a uma restrição autoimposta, o juramento (shevuah) amarra a pessoa a algo solene, tomando Deus por testemunha. Por isso o juramento é algo seríssimo, embora o voto também o seja e a Torá coloque ambos no mesmo nível. A simples invocação de um juramento era capaz de resolver situações de disputas, como em Êxodo 22:11, ou de absolver o inocente e expor o culpado, como em Números 5:19-22. Por outro lado, juramentos podem ser feitos de modo imprudentes, como os votos, a exemplo do juramento de Saul, em 1Samuel 14:24, quando declarou que seria amaldiçoado o soldado do exército que comesse alguma coisa antes do entardecer, pondo em risco a vida do próprio filho Jônatas que não o ouvira jurar.
Assim como os votos, os juramentos estão por todas as Escrituras, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento e não foi proibido por Yeshua, como veremos adiante. Prova disso é que vemos o apóstolo Paulo fazendo um juramento em 2Co. 1:23, tomando Deus por testemunha para se justificar perante os coríntios. Logicamente, dados o profundo conhecimento da Torá, o temor e o compromisso de Paulo para com Deus, o simples fato de tomar esse juramento, em uma carta a uma igreja tão problemática como a de Corinto, demonstra a necessidade e a gravidade da situação em que a escreveu. Outro exemplo se encontra em Apocalipse 10:6, quando um anjo estende a mão direita para o céu e jura por aquele que vive para todo sempre.

A PALAVRA PRECIPITADA
O capítulo que trata de votos e juramentos ainda inclui mais uma palavra na mesma categoria que é mivtá. Ela é traduzida nas versões em português por “declaração” ou “palavra precipitada”. É uma palavra raríssima e aparece apenas aqui em toda a Bíblia e, por essa razão, é uma palavra mais que especial. A ideia é de exprimir uma obrigação para com Deus pela palavra falada. Enquanto um voto pode ser feito de modo silencioso — e não deixa de ser um voto por isso—, a mivtá pressupõe que essa declaração saia dos lábios de quem vota, podendo haver inclusive testemunhas. Assim, tanto um voto como um juramento podem se enquadrar como mivtá.
A passagem de Números assume que a fala, uma vez externalizada, cria uma obrigação automática que alcança as cortes celestiais. A murmuração dos lábios que, muitas vezes é feita sob forte tensão, provação ou períodos de tribulação, é ouvida pelos céus imediatamente que, por sua vez, cobrará o que foi prometido. Daí a tradução possível de “palavra precipitada”, pois pode não haver reflexão apropriada no que saiu dos lábios de quem votou.
Refletindo ou não na promessa que se fez, a pessoa que a exprimiu fica obrigada diante de Deus de cumprir o que disse. Em relação a esse mesmo aspecto do voto, o Pregador exorta a quem vota que não atrase seu cumprimento e que é melhor não fazer voto algum do que fazer e não cumprir (Ec. 5:4-5).
O voto, o juramento e a mivtá possuem o mesmo peso e são capazes de prender uma pessoa pelo resto da vida, conforme a tradução literal para “amarrar a alma”, ou ainda confinar, aprisionar. Esse é o contexto original para quem faz um voto ou um juramento. Daí o cuidado extremo com a mivtá (voto ou juramento declarado em voz alta).
Longe de ser uma mera figura de linguagem, isso explica por que muitas pessoas têm suas vidas amarradas em determinado ponto, além do qual são incapazes de progredir. Estão paralisadas, como presas por cordas invisíveis em determinadas áreas, reclusas em prisões espirituais ou condenadas a ciclos viciosos. O motivo por trás pode estar em votos não cumpridos ou esquecidos. Nunca é tarde para cumprir aquilo que se prometeu a Deus, especialmente se foi uma mivtá, uma promessa que passou pelos lábios apressadamente e sem reflexo nas consequências.

“SIM, SIM E NÃO, NÃO”
A mivtá nos relembra que uma palavra falada não é mero discurso ou um som qualquer. É algo que remete a aliança com Deus e Ele não esquece de nada do que lhe dissemos e prometemos. É imperativo relembrar, nesse contexto, que vida e morte estão no poder da língua (Pv. 18:21), incluindo a vida e a morte, física ou espiritual, para o dono da própria língua.
Quando Yeshua ensinou aos discípulos sobre votos e juramentos (Mt. 5:33-37), fez uma referência clara à mivtá. De modo algum, Ele altera as ordenanças referentes a voto, juramento e a declarações faladas (mivtá) na Torá, mas, na verdade, usa um artifício muito conhecido entre os rabinos de seu tempo que consistia em “erguer cercas ao redor da Torá”, a fim de se proteger os mandamentos.[2]
Ele combate uma prática crônica de seu tempo, inclusive estimulada por alguns rabinos, de se jurar por qualquer coisa. A maneira apressada de se fazer e a motivação nem sempre eram legítimas. O juramento feito a Deus é algo estabelecido na Torá e Yeshua aqui reforça sua gravidade, advertindo que ninguém os faça sem a devida reflexão e em casos de extrema seriedade. Essa foi uma exortação fundamental, pois, em sua época, o juramento havia se tornado em algo corriqueiro, feito sem o devido temor a Deus.
Ele finaliza com o famoso “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não!”. Em outras palavras, valem mais os atos de retidão moral e a prática de alguém cujo caráter irrepreensível respaldem palavras diretas e sinceras. O caráter de um homem é provado não pelo que diz, mas por suas ações corretas e justas. Alguém que assim age tem a palavra confiável e agrada ao Pai. Tal pessoa não precisa fazer juramentos impensadamente com o propósito de ganhar credibilidade perante os homens, tampouco perante Deus que conhece todos os corações. Yeshua confirma que ações falam mais alto que palavras ou declarações, e que juramentos são algo muito sério para serem feitos de modo precipitado. O temor a Deus deve preceder o que sai de nossos lábios. Ele assim nos ensina para nosso próprio bem.
“Laço é para o homem apropriar-se do que é santo, e só refletir depois de feitos os votos.” (Provérbios 20:25)
[1] O capítulo 5 do volume 1 de A Oliveira Natural é dedicado inteiramente à vida e aos ensinamentos do rabino Shaul, mais conhecido pelos cristãos gentios por Paulo, e traz luz sobre sua abordagem muitas vezes mal compreendida sobre a Torá.
[2] Para saber mais sobre as “cercas ao redor da Torá”, ver capítulo 4 do volume 1 de A Oliveira Natural.
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