Purim e a Guerra com o Irã: a História se Repete
A Festa de Purim ocorre em 14 de Adar que, neste ano, coincide com 3 de março. Há três dias, retomou-se o segundo round da guerra contra o Irã, conforme previ no artigo Guerra à Vista e o Clamor pela Liberdade no Irã, publicado há algumas semanas. Escrevi sobre a séria ameaça ao fechamento do estreito de Ormuz, do reflexo dos laços milenares entre judeus e persas, e que esse seria um conflito capaz de alterar a geopolítica do Oriente Médio. Em apenas três dias de combates, parece que tudo está se confirmando. Há, porém, algo mais profundo que um mero conflito que é o mistério de Purim. Não se trata de uma coincidência de datas somente, mas das páginas do livro de Ester saltando para a realidade atual. Neste Purim e na guerra com o Irã, a História se repete.
SHABBAT ZACHOR
O sábado que precede Purim é conhecido como Shabbat Zachor, ou sábado da lembrança, cuja porção da Torá termina com o mandamento de se lembrar do primeiro e maior inimigo de Israel, Amaleque (Dt. 25:17-19). Não é coincidência que essa parashah seja lida às vésperas de Purim. O antagonista do livro de Ester é Hamã, ninguém menos que um agagita e descendente de Amaleque. Este é o arquétipo do inimigo covarde que atacou os israelitas pela retaguarda, matando os mais fracos como crianças, mulheres, idosos e doentes. Daí o mandamento de se lembrar dessa maldade contra Israel quando era apenas uma nação recém-nascida, em peregrinação pelo deserto.
Por séculos, os pensadores judeus se questionaram sobre o que significaria o mandamento de “lembrar”. Uma das conclusões é que zachor implica em estar ciente da ameaça de Amaleque, uma vez que seu espírito se levanta em todas as gerações (Êx. 17:16). Esse estado de ciência conduz à vigilância. No entanto, somente a vigilância não dissipa a ameaça. É preciso ter coragem para se organizar e dar a resposta correta ao inimigo, na hora e local certos, exatamente como agiu Ester e o povo judeu por todas as províncias do domínio persa. O que era para ser a ruína dos judeus se converteu em triunfo. “Naquele dia os inimigos dos judeus esperavam vencê-los, mas aconteceu o contrário; os judeus dominaram aqueles que os odiavam” (Ester 9:1).
MESMO ÓDIO E MESMA IDEOLOGIA
Na Pérsia antiga, Hamã, cego por seu ódio a Mordechai, decidiu matar todo seu povo. Ele espalhou essa ideologia perversa com respaldo do selo real a todas as províncias do império, por meio dos governadores e príncipes. A ordem era “destruir, matar e aniquilar todos os judeus”, incluindo as crianças. Hamã trabalhou por quase um ano a fim de cumprir seu intento maligno.

Cerca de 2.500 anos depois, o mesmo intento maligno tem sido expresso pela ditadura dos aiatolás, desde que tomou o poder da monarquia do xá em 1979. Há 47 anos, o regime do Irã prega abertamente aos quatro ventos que pretende “varrer Israel do mapa”. Não se trata de simples retórica, mas de um discurso respaldado por ações políticas e militares. Como Hamã, o regime espalhou seu ódio a Israel por todo o mundo islâmico e não islâmico, reforçando suas palavras com a construção de um grande arsenal de mísseis e financiamento de grupos terroristas por todo o Oriente Médio. Tudo com o propósito único de cumprir sua promessa e seu intento de aniquilar Israel, tal como Hamã.
A mesma balada de ódio de “morte a Israel e morte à América” foi entoada em discursos no parlamento iraniano bem como em mesquitas do mundo inteiro, no mesmo tom de ameaça e medo disseminado por Hamã na Pérsia antiga. De fato, o Hamã de nosso tempo, aiatolá Khamenei, acreditou ser possível cumprir suas palavras, cego pelo ódio irrefreável contra Israel, e investiu a riqueza do país, em especial o lucro do petróleo, em armas de guerra. Em última instância, burlou as sanções econômicas impostas ao regime na busca incessante de construir uma bomba atômica para alcançar seu intento. Esse foi o mesmo ódio que levou Hamã a construir uma forca muito alta na qual pretendia assassinar Mordechai. Algo, porém, saiu de controle e ele acabou sendo enforcado nela.
MESMO ROTEIRO COM DIFERENTES PERSONAGENS
O desenrolar do atual conflito possui o mesmo cenário do livro de Ester: a Pérsia antiga e atual Irã, mas vai além. Possui o mesmo roteiro da trama entre Mordechai e Hamã, entre judeus e todos os que desejam exterminá-los. Logicamente os personagens são diferentes, porém, interpretam os mesmos papéis com nomes distintos. É como se assistíssemos a um teatro de marionetes cujos verdadeiros artistas e reais condutores do show se encontram fora do alcance da vista — as forças ocultas do bem e do mal.

Na história de Purim, por algum motivo misterioso, Deus prefere ficar escondido. Não por acaso, seu nome não aparece em nenhum lugar do livro de Ester. Por outro lado, é impossível não enxergar sua mão invisível controlando cada detalhe, até mesmo o intento maligno do coração de Hamã, ao qual Ele literalmente “dá linha” ou “estende a corda” para ver até onde vai. Seu limite para o mal é limitado e cessa no ponto exato no qual Deus diz: Basta! É aí que ocorre a virada de mesa e a história inteira tem um desfecho inesperado.
Na história de Purim que se repete agora, as mesmas ameaças de Hamã vinham se avolumando contra Israel, desde o confronto de junho do ano passado. Apesar do golpe que sofreu em seu programa nuclear, o regime do Irã persistia de todas as formas a fim de alcançar a bomba nuclear e, segundo a inteligência norte-americana, estava a poucos meses disso. Agora, porém, a virada aconteceu nos primeiros segundos do atual conflito, exatamente no Shabbat Zachor, dia em que a passagem referente a Amaleque foi lida em todas as sinagogas do mundo.
CONFRONTANDO AMALEQUE
As hostilidades se iniciaram no momento oportuno aguardado por Israel, quando toda a cúpula do regime iraniano se reuniria. A inteligência israelense sabia a data, horário, local e quem estaria presente. Aquela seria a hora H para atacar a cabeça da serpente, definição do próprio povo iraniano para se referir ao aiatolá e à liderança do regime.
A queda de Hamã, o descendente mais vil de Amaleque, se deu quando julgava estar no auge de seu sucesso e na segurança do palácio, cercado de pompa e honra, prestes a aniquilar aquele que elegeu por seu maior inimigo: Mordechai e seu povo. No último sábado, 28 de fevereiro, o mesmo ocorreu com o líder supremo e toda a cúpula do regime iraniano. Enquanto se reuniam para deliberar sobre a aniquilação do Estado judeu, na fortaleza aparentemente segura de seu bunker, foram exterminados em um só instante pelo bombardeio maciço das Forças de Defesa de Israel.
O ataque preemptivo deu início à Operação Sha’agat HaArieh — O Rugido do Leão — que contou com a participação de mais de 200 aeronaves da Força Aérea de Israel para destruir 500 alvos militares no território iraniano, a maior operação aérea da história da nação. Neutralizou-se basicamente dezenas de radares e o sistema de defesa antiaéreo a fim de se obter a supremacia aérea, como em 2025, bem como a destruição de grande parte do aparato de lançamento de mísseis balísticos, o que consiste na principal ameaça contra Israel. Simultaneamente, as forças norte-americanas que se encontravam concentrando meios na região há algumas semanas, iniciaram a Operação Epic Fury com objetivo principal de neutralizar as plantas nucleares iranianas.
No primeiro minuto de guerra, o líder supremo do Irã foi eliminado em seu complexo cuja fortaleza foi incapaz de protegê-lo, após décadas de ameaças contra os judeus e de tirania contra seu povo. Juntamente com ele, quase 50 líderes foram eliminados, infligindo-se um dano inestimável à cadeia de comando do regime.

Imagem satélite do ataque israelense sobre o bunker onde o supremo líder Ali Khamenei se encontrava quando foi morto, no Shabbat Zachor, 28 de fevereiro de 2026 (via Jerusalem Post)
A rainha Ester, juntamente com Mordechai, teve a coragem de confrontar o espírito de Amaleque para salvar sua geração do extermínio. Do mesmo modo, em nossa geração, os líderes de Israel e dos Estados Unidos, levantados “para um tempo como este”, tiveram a coragem de confrontar o mesmo espírito que ameaça Israel e o Ocidente há quase meio século. Mordechai era da tribo de Benjamim e parece que o nome do atual primeiro-ministro de Israel também não é mera coincidência.
DA TRISTEZA À ALEGRIA
Mísseis balísticos iranianos foram lançados às centenas contra Israel e países árabes vizinhos. Apesar da maioria ter sido interceptada, alguns caíram em regiões residenciais como Tel Aviv, Beit Shemesh e Beer Sheva, causando algumas mortes e dezenas de feridos. Esse é o preço a pagar por se confrontar Amaleque. Hoje é apenas o quarto dia de conflito e data de Purim, mas tanto judeus quanto iranianos se sentem aliviados com a morte do terrível ditador Khamenei. E, à medida que novos ataques aéreos são realizados contra alvos do regime, mais se reduz a probabilidade de lançamento de mísseis contra Israel e demais países da região.
A ruptura da estrutura de comando e controle causada pela Operação Rugido do Leão abalou profundamente o regime do Irã e, embora o conflito não tenha se encerrado e haja ameaças de mais mísseis, o fato é que, desde o último sábado, todo Israel foi tomado de esperança por dias mais promissores. No livro de Ester, o juízo alcançou o arqui-inimigo de Israel em um só dia, quando Hamã e seus dez filhos foram mortos, pendurados à forca. Novamente a história se repetiu e os judeus tiveram sua sorte transformada quando a juízo alcançou o líder supremo do Irã e os quase 50 líderes de seu regime tirânico, em um só momento, através das aeronaves de combate da Força Aérea de Israel.
Os judeus do império persa estavam de luto e angustiados perante a ameaça de aniquilação total, mas a virada de mesa na história os fez exultarem de júbilo. Para marcar esse livramento, ordenou-se ao povo que “guardassem os dias quatorze e quinze do mês de Adar todos os anos (…), o mês que lhes mudou de tristeza em alegria, e de luto em dia de festa” (Ester 9:21-22).
Essa alegria se tornou a marca registrada de Purim e, desta vez, contagiou também o povo iraniano que invadiu as ruas do país e das partes do mundo para onde foram exilados para celebrar. Afinal, por quase meio século, os persas têm sofrido todo tipo de abuso e perseguição pelo regime dos aiatolás, responsável pelo derramamento do sangue de dezenas de milhares de seus cidadãos e demais inocentes mundo afora. Cabe lembrar que muitos dos iranianos celebrando no Irã eram parentes de pessoas assassinadas brutalmente pelo regime nas manifestações ocorridas em 8 e 9 de janeiro deste ano, pais, mães, filhos e irmãos enlutados que sofreram perdas irreparáveis.
As cenas a que assistimos do povo persa cantando, dançando e celebrando são dignas de uma Festa de Purim e, nesta ocasião especial, os iranianos se juntaram aos judeus em celebração, em que pese o fato dos dois países se encontrarem em guerra e seus povos enfrentando os mais duros desafios. Uma das cenas mais incríveis foi ver iranianos e judeus nas ruas de Londres, no sábado à noite, em plena festa, cantando Am Israel Chai (O Povo de Israel Vive) enquanto sacudiam alegremente as bandeiras de seus países. Uma cena adorável para se guardar na memória em mais um dos incontáveis milagres de Purim. Sim, o povo de Israel vive e jamais será aniquilado!
Realmente esta Festa de Purim de 2026 é especial e o que torna isso mais simbólico, além da presente guerra, é o eclipse lunar total ou Lua de Sangue que ocorre exatamente no dia de Purim, em 3 de março de 2026. Na última Festa de Purim, ocorrida em 14 de março de 2025 (14 de Adar), houve a ocorrência da mesma Lua de Sangue e, sabendo que não podia ser uma mera coincidência, escrevi sobre isso no artigo de Purim do ano passado em Purim e as Luas de Sangue. Nele destaquei a conexão entre as guerras de Israel, o conflito contínuo contra Amaleque e a mensagem dada dos céus por intermédio das Luas de Sangue.
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Vejo que sou o primeiro a comentar 😃 e durante a leitura, confesso que cheguei a me emocionar, só tenho a dizer : AM ISRAEL CHAI
BARUCH ATA ADONAI MELECH HAOLAM !
D’US TE ABENÇOE GETÚLIO CIDADE.
Prezado Gleidiano,
Fico feliz que tenha sido abençoado com o texto.
Shalom e bênçãos em Yeshua!
Parabéns, Irmão Getulio.
Excelente matéria.
Abraços
Shalom, Shalom.
Olá, Ricardo,
Obrigado. Shalom e bênçãos!