Pentecostes e o Livro de Rute
A Festa de Pentecostes, também conhecida por Festa das Semanas (Shavuot) pela referência à contagem do ômer (Sefirat HaOmer), encerra a última das Festas da Primavera e é um festival agrícola. Outros nomes para a mesma são Festa das Primícias do Trigo (Hag HaBikkurim) e Festa da Colheita (Hag HaKatzir). O cenário da história de Rute se passa durante a temporada de colheita do trigo, em Israel, e este é o principal motivo de seu livro ser lido durante essa celebração. Neste artigo, vamos examinar a conexão profunda entre Pentecostes e o livro de Rute, de acordo com as Escrituras e a tradição rabínica.
A volta de Naomi para Israel, após mais de uma década de autoexílio e tragédia familiar na terra de Moabe (Moav) arrasta consigo uma história de perda e luto. Após perder o marido e seus dois filhos, Naomi ficou só, restando-lhe apenas as duas noras moabitas, a quem despediu para voltarem a seu povo e à casa de seus pais. Naomi entendeu que retê-las consigo seria injusto. Elas não tinham de carregar o mesmo fardo de Naomi pelo resto da vida; eram jovens e poderiam se casar novamente e constituir família entre seu povo. Para Naomi, quer ficasse em Moabe ou voltasse para sua terra, em Belém, o fim não seria muito promissor para uma viúva e mãe enlutada naquele tempo, tendo de contar com a bondade alheia para sobreviver.
Assim ela despede Rute e Orfa, mas a primeira se recusa a deixá-la e, quando sua sogra persiste que ela volte para sua família, Rute faz uma das mais belas declarações de amor e fidelidade por todas as Escrituras. “Não me instes para que te deixe, e me obrigues a não seguir-te. Aonde quer que fores irei, e onde quer que pousares, ali pousarei. O teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus” (Rute 1:16 – AEC). A força dessa declaração dissuadiu Naomi que entendeu estar atada por corpo e alma pelo amor de sua nora Rute; ambas estariam conectadas até o fim e não poderiam se desvencilhar uma da outra.
A BONDADE DE RUTE
As Escrituras mencionam pelo menos duas vezes a bondade de Rute, não apenas para com sua sogra, mas para com a família de seu falecido marido, como se vê na busca pelo parente remidor de sua casa a fim de que seu nome não fosse eliminado de Israel. A tradição vai um pouco além e menciona a bondade de Rute para com sua sogra durante todos os anos em que viveu em Moabe. Rute nunca lhe causara nenhum problema ou decepção e muitos foram seus atos de bondade para com Naomi. No entanto, não se fala nesses atos porque o ato de se apegar à sua sogra para deixar sua terra e imigrar para uma terra estrangeira, como uma viúva sem perspectiva de outro casamento, teria ofuscado todos os demais.

Esse ato ultrapassa os anteriores, pois, até então, Rute demonstrara amor por um membro da família, o que não é algo raro. Especialmente após Naomi ter ficada viúva de Elimeleque (Elimelech), sua sensibilidade foi ainda maior para amparar e servir sua sogra. Muitas mulheres teriam feito o mesmo. No entanto, pouquíssimas ou talvez nenhuma outra teria deixado sua terra nem a família de seu pai para imigrar para uma terra estrangeira, sendo ela também uma viúva. Não se vislumbrava futuro algum para uma mulher assim, ainda mais ao se tratar do povo de Israel que tinha por lei não se misturar com mulheres de outros povos.
O ato de se apegar a Naomi “até a morte” não era apenas mais um dos atos de bondade de Rute, mas um ato de amor sacrificial. Era o ato de alguém que renunciava sua própria vida, despojando-se de qualquer esperança de uma vida melhor em prol de servir outra pessoa, não por um período curto ou longo, mas pelo resto da vida. Esse é o ato de alguém que considera a vida do outro superior a sua própria, impelido por amor e compaixão, e que está disposto a render sua vida em favor desse outro.
Rute compreendeu que não poderia fazer nada para amenizar a terrível dor de Naomi e, então, decide entregar ela mesma para servir Naomi até a morte. É este exato ato de Rute que toca profundamente o coração de Deus, pois foi o mesmo ato que Ele realizou para salvar um mundo perdido: entregar seu próprio Filho e demonstrar esse amor sacrificial por intermédio do sofrimento, servindo incansavelmente até a morte violenta na cruz.
O PARENTE REMIDOR
Ao regressar a Belém, sua terra natal, de onde saíra há mais de uma década com sua família para fugir da fome, Naomi e Rute, agora duas viúvas, precisam recomeçar suas vidas. Elas têm de iniciar pelo básico que era obter seu sustento diário. Pentecostes era a Festa que inaugurava a colheita do trigo, o cereal nobre que representa o pão de cada dia, e acabara de acontecer naquela época. Então, era plena temporada da ceifa e Rute vai a um campo buscar colher das sobras dos segadores. Isso era garantido pela Torá que determinava que os cantos dos campos não deviam ser ceifados a fim de permitir que os pobres e necessitados, como viúvas, órfãos e estrangeiros, colhessem para si.
Rute termina segando no campo de Boaz que a recebe e a trata com bondade. Ao questioná-lo de seu favor, Boaz responde que ouvira falar do bem que ela fizera à sua sogra, deixando seus pais e sua terra, mesmo após ficar viúva, e indo para um povo que desconhecia. Vê-se aqui a lei da semeadura em pleno movimento. Quem semeia o bem colherá o bem; quem semeia o mal colherá o mal. Então, Boaz a abençoa com palavras proféticas: “Que o Senhor recompense o teu feito. Que o Senhor, o Deus de Israel, sob cujas asas vieste buscar refúgio, te recompense ricamente” (Rute 2:12).
Rute vem a descobrir por Naomi que Boaz é seu parente remidor. Este era o parente próximo que, pela Torá, tinha o direito de suscitar descendência do parente falecido, neste caso Elimeleque, a fim de não permitir que seu nome fosse extinto da tribo de Judá. Certamente, não passara pela cabeça de Rute que ela se casaria com um homem de Belém, a casa de seu falecido marido. Ela sabia que era estrangeira e não nutria esperança alguma por isso, pois certamente conhecia o trecho em que a Torá fala dos moabitas. “Nenhum amonita ou moabita entrará na congregação do Senhor (…) porquanto não saíram com pão e água a receber-vos no caminho, quando saíeis do Egito” (Dt. 23:3-4).

A tradição conta que até aquele ponto da história de Israel, essa ordenança nunca fora discutida. Quando surge a proposta de Boaz remir o nome de seu parente Elimeleque através do casamento com Rute, a questão é levada aos anciãos e juízes da cidade que, após debaterem, concluem que a proibição referente a Amon e Moabe não se aplicava a mulheres, pois a própria Torá aponta a razão da proibição: “porquanto não saíram com pão e água a receber-vos no caminho, quando saíeis do Egito”. Isso não se aplicava às mulheres, pois elas nunca saíam para fornecer provisões a viajantes.
Essa interpretação não apenas revoluciona o entendimento dos anciãos de Belém que não tinham noção do que representaria a união entre Boaz e Rute para a nação de Israel. Ela contrasta de modo belo com o que diz o livro de Rute. Embora os moabitas não tenham saído para receber Israel com pão e água no caminho, ao chegar a Belém, Rute, uma moabita, foi recebida por Boaz com fartura de pão e água (Rute 2:9,14).
Boaz aqui é um modelo da bondade e da misericórdia de Deus que nunca nos retribui conforme nossos atos egoístas e mesquinhos. Ao contrário, sempre nos recebe com amor e graça. Do mesmo modo, Boaz, ao agir como parente remidor, é um tipo de Yeshua, nosso parente remidor, que desceu de sua glória para morrer pelo mundo e redimir sua Noiva a fim de se casar com ela.
O SACRIFÍCIO RECOMPENSADO
A união de Boaz e Rute foi providencial e promovida pelos céus. Ambos eram pessoas íntegras, bondosas e plenas do amor de Deus. O Senhor conhecia a sinceridade de Rute ao render sua vida em prol de sua sogra, despojando-se de tudo, inclusive de seu futuro, para ampará-la e amá-la até a morte. Ele conhecia também a sinceridade de Boaz ao remir seu parente e perpetuar seu nome em Israel. O sacrifício de Rute não passara despercebido. Deus não somente a inserira na linhagem de Abraão, mas lhe concedeu a dádiva de estar na ascendência direta do Messias.
Desse casamento, Rute gerou um filho. As mulheres da vizinhança lhe disseram: A Naomi nasceu um filho! Em outras palavras, ele não deve ser visto como filho de uma moabita, mas da família de Naomi que descende da família mais nobre de Judá. Essas mesmas mulheres deram-lhe o nome de Obed que significa servo. No entanto, a tradição diz que o nome é o acrônimo de Od ben David — “mais um filho e depois Davi”. Assim, seu nome teria sido uma profecia que Deus colocou na boca daquelas mulheres. Após Obed, mais um filho, Ishai (Jessé) e, em seguida, Davi, aquele que há de reinar sobre Israel e de cuja descendência virá o Rei Messias que há de reger sobre as nações.
Rute foi uma inspiração também para Davi que, embora não tenha convivido com ela, conhecia bem sua história e foi inspirado por sua bisavó. Quando escreve: “Concede de tua força a teu servo e salva assim o filho da tua serva” (Salmo 86:16); e “Sou teu servo, filho de tua serva” (Salmo 116:16), a referência não seria a sua mãe direta, mas a Rute. Os sábios também perguntam: “Por que o rolo de Rute é lido em Shavuot? Para ensinar que a Torá só pode ser adquirida através da aflição e do sofrimento”.[1] Yeshua ecoa essas palavras ao ensinar sobre os sofrimentos para entrar no Reino de Deus como a porta estreita, o levar a cruz e a renúncia do ego.

A vida de Rute foi marcada por aflições e dificuldades. Mesmo em meio ao sofrimento, ela escolheu se unir ao povo de Israel, seguir a Torá e servir ao Deus de Israel. A vida de Davi não foi diferente. Nenhum outro sofreu tanta aflição como o grande guerreiro de Israel e o poeta glorioso dos altos louvores a Deus. A tradição também ensina que Davi nasceu e morreu em Shavuot e esse é outro motivo que conecta diretamente Pentecostes e o livro de Rute.
Portanto, a festa que celebra a entrega da Torá, no Sinai, marca a transformação milagrosa da vida de Rute, a moabita que tocou o coração de Deus, bem como o ciclo de vida de seu bisneto Davi. Shavuot também é o prenúncio da chegada do Messias, o Senhor da grande colheita, não de trigo, mas de homens para o Reino de Deus. Além de tudo isso, Ele é o único capaz de conceder-lhes o batismo com o Espírito Santo. Tudo isso resume a essência de Pentecostes.
[1] Yakult Shimoni, Remez 596.
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