O Livro das Lágrimas

O Livro das Lágrimas

4 de Dezembro, 2025 2 Por Getúlio Cidade

As lágrimas ocupam um lugar especial junto a Deus. Nenhum sofrimento passa despercebido dele, embora sua origem seja fruto da rebeldia do homem contra seu Criador. Por mais distante que pareça, Deus se compadece da raça humana e se identifica com qualquer tipo de sofrimento. Não é por acaso que um dos nomes para o Messias é Homem de Dores, segundo o profeta Isaías. Ele conheceu todo tipo de dor e não há sofrimento que lhe seja estranho. Neste artigo, vamos conhecer o Livro das Lágrimas e seu significado para Deus.

Em seu clamor de aflição, Davi exclama: “Registra as minhas aflições; põe as minhas lágrimas no teu odre — não estão elas no teu livro?” (Salmo 56:8). Davi, como antepassado e figura messiânica, experimentou muitas angústias em sua vida inteira, antes e depois de ser rei. Essas experiências o levaram a escrever grande parte de seus salmos, compostos sob forte efeito emotivo causado pelas agruras por que atravessou. No salmo 56, ele registra uma delas, quando foi perseguido e atacado por seus inimigos. Ele suplica que Deus marque suas fugas e peregrinações, e deposite suas lágrimas em seu odre.

Embora soe como uma bela metáfora, o que não deixa de ser, o odre — uma garrafa ou cantil feito de couro animal — representa aqui um depositário das lágrimas, algo que realmente existia em algumas civilizações antigas. Era uma alusão ao ato de se coletar lágrimas em tempos de angústia e calamidade, preservando-as em um “lacrimatório” como memorial do tempo de aflição. Muitos desses lacrimatórios foram encontrados em escavações de túmulos romanos. Se os homens na antiguidade eram capazes de captar as lágrimas para preservar lembranças de tempos difíceis, quanto mais Deus que tudo vê e conhece. 

No céu há muitos livros e as Escrituras mencionam alguns deles. O mais conhecido é, sem dúvida, o Livro da Vida, muito abordado nas orações de Selichot (pedidos de perdão), feitas diariamente nos dias que precedem as Festas do Outono, que apontam para a chegada do Messias e o destino dos homens, para vida ou para a morte. Por ser mencionado nos Evangelhos e em Apocalipse, esse também é o livro do céu mais conhecido entre os cristãos.

Por ser o lugar do Trono de Deus e um lugar mais que especial, o céu contém muitos outros livros especiais e um livro pouco conhecido é o Livro das Lágrimas, o mesmo mencionado por Davi nesse salmo. A pergunta de Davi soa menos como dúvida do que uma assertiva declaração de fé: “Não estão elas (lágrimas) no teu livro?”. Davi, como Yeshua — seu descendente natural e herdeiro eterno do trono de Israel — sabia bem o que era o Livro das Lágrimas do Senhor, usado para registrar todo tipo de sofrimento da humanidade, desde Adão até o último homem.

AS PORTAS DAS LÁGRIMAS

No judaísmo existe a noção simbólica de que o choro genuíno é uma porta sempre aberta para Deus. O Talmude Babilônico, por exemplo, diz que, de acordo com a interpretação de Lamentações 3:8, desde a destruição do Templo, as portas da oração tradicional feita naquele lugar foram fechadas. A despeito desse fato, as portas das lágrimas não foram fechadas, e quem clama a Deus pode estar seguro de que suas orações serão respondidas, de acordo com o Salmo 39:12: Ouve, ó Senhor, a minha oração, e inclina os teus ouvidos ao meu clamor; não te cales perante as minhas lágrimas”.[1] Não importa o tamanho do sofrimento, as portas das lágrimas sempre estarão abertas para se acessar o coração de Deus.

Imagem: Gemini

Nessa mesma linha, inspirada no Salmo 6, também de autoria de Davi e que fala sobre sua profunda agonia física e de alma, a tradição rabínica transmite a ideia de que a lágrima abre portões que a oração não consegue abrir. “O Senhor ouviu a voz do meu choro” (v.8). As lágrimas têm voz e são ouvidas por Deus. Essa é uma das maiores afirmações sobre a força espiritual das lágrimas em relação a uma oração articulada.

A tradição faz alusão ao Livro das Lágrimas em vários comentários rabínicos, especialmente em referência aos salmos mencionados acima, ao transmitir a ideia de que a lágrima do coração é registrada (escrita) diante do Senhor. Uma lágrima silenciosa, derramada por um coração aflito, pode falar mais alto que muitas palavras e definitivamente será escrita no livro de Deus. A referência aqui vai além da lágrima física, mas da lágrima chorada em silêncio, nas câmaras do coração. Ainda que derramada em oculto, não passa despercebida do Senhor.

AS LÁGRIMAS DA TESHUVAH

As lágrimas não foram projetadas no plano inicial de Deus para o homem. A queda no Éden produziu uma transformação cósmica em Adão e todos seus descendentes. Foi nesse contexto de sofrimento — algo nunca intencionado por Deus — que as lágrimas foram criadas a fim de permitir que o homem extravasasse suas emoções mais dolorosas. Apenas Yeshua — o segundo Adão — tem o poder de remover o sofrimento humano e Ele o fará em seu Reinado de paz, quando enxugará dos olhos toda lágrima. Essa será uma das últimas promessas a se cumprir.  

A expressão rabínica de que as portas das lágrimas nunca se fecham aponta para o caminho de volta para Deus, mais conhecido como Teshuvah ou arrependimento. Ela foi criada em uma época em que o povo judeu teve interrompido seu culto a Deus no Templo. Ele fora destruído e seguiu-se a deportação forçada para o exílio. A ideia central é de que, embora Israel não tivesse mais onde adorar a Deus, numa época em que tal adoração era centrada em um local físico, sua adoração seria aceita mediante lágrimas de arrependimento por todos os pecados que geraram sua destruição.

É basicamente isso que Deus exorta, por intermédio do profeta Joel, ao dizer ao povo: “Ainda assim, agora mesmo diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto” (Joel. 2:12). O verbo “convertei-vos”, no original, é fazer Teshuvah, retornar ao caminho para Deus. E não há outra forma de se fazer isso que não seja pelo arrependimento genuíno de nossos pecados, mudando de direção radicalmente para Deus. Isso é feito inevitavelmente “com choro e com pranto”.

Foi exatamente assim que o filho pródigo fez Teshuvah, na solidão de seu isolamento social e de seus pensamentos, quando viu que precisava retornar urgentemente para a casa de seu pai. Ninguém precisou lhe explicar o caminho de volta, pois ele o conhecia muito bem. Seu pai permaneceu no mesmo local o tempo todo. Ele que precisava decidir voltar para casa e essa decisão foi tomada apenas após o choque de realidade que teve ao ter de comer com os porcos. Apenas as lágrimas da Teshuvah produzem um coração quebrantado, esvaziado do orgulho e da soberba, e permitem um retorno completo rumo a Deus que, assim como o pai da parábola, sempre aguarda seus filhos de braços abertos e com profunda compaixão.

Bartolomé Esteban Murillo – The Return of the Prodigal Son (c. 1667-70)

AS LÁGRIMAS DE UMA MÃE

Nada marca mais o Livro das Lágrimas do que o choro doloroso de uma mãe em aflição. É o sentimento mais puro que une sofrimento, amor e compaixão e que mais se aproxima do coração de Deus. Isso está bem ilustrado nas Escrituras e nos comentários rabínicos a respeito de Raquel, uma das matriarcas de Israel.

“Assim diz o Senhor: Uma voz se ouviu em Ramá, lamentação, choro amargo; Raquel chora seus filhos; não quer ser consolada quanto a seus filhos, porque já não existem. Assim diz o Senhor: Reprime a tua voz de choro, e as lágrimas de teus olhos; porque há galardão para o teu trabalho, diz o Senhor, pois eles voltarão da terra do inimigo” (Jeremias 31:15-16).  

A literatura midráshica clássica discorre sobre esse episódio trágico na história de Israel, enfatizando o choro de Raquel como uma dor profunda que se prolonga no exílio, dia e noite. É como se ela visse o sofrimento de seus descendentes e ficasse inconsolável. Seu choro é tão comovente que “ela chora e faz com que o Santo, Bendito seja Ele, chore com ela” (conforme Isaías 22:12). “Ela chora e faz com que os anjos ministradores chorem com ela” (conforme Isaías 33:7).[2] Os comentários na Midrash sobre o choro de Raquel se prolongam, estendendo seu pranto para os elementos da natureza e do universo, numa bela poesia, revestida de luto e lágrimas.

Séculos mais tarde, após o massacre dos bebês, em Belém, por Herodes, Mateus usou a mesma passagem para expressar a terrível dor daquelas mães (Mt. 2:16-18). O choro da dor de ver os filhos mortos e seu remanescente marchando em cadeias para o exílio era agora ouvido em Ramá. O choro das entranhas de Raquel aqui retrata o terror sofrido pelas mães da região de Belém que tiveram seus filhos arrancados de si à força para serem atravessados cruelmente pela espada. Não há palavras em nenhuma língua capazes de traduzir o lamento daquelas mães, o mesmo da matriarca Raquel que não suporta ver a desgraça dos filhos de Israel.

Imagem: Gemini

Além de concordar com os comentários rabínicos sobre essa profecia de Jeremias, minha particular interpretação é de que Deus não resiste ao choro de uma mãe angustiada. Quando Ele diz a Raquel para reprimir sua voz de choro e suas lágrimas é como se dissesse: Eu não suporto vê-la chorando! Por um lado, Deus estava sendo justo ao cumprir sua promessa de castigo pelo pecado de seu povo. Por outro, seu caráter é de pura compaixão, especialmente diante de uma mãe dilacerada pela dor da perda dos filhos.

Por isso, logo em seguida, Ele promete trazer Israel de volta à sua pátria. Arriscaria dizer que essa decisão do Altíssimo foi tomada ao ver uma matriarca em um pranto inconsolável, a fim de levar conforto a seu coração sofrido. Na mesma profecia do choro santo e puro de Raquel, Ele diz que há recompensa para seu trabalho.

O trabalho de Raquel aqui mencionado foi um trabalho de intercessão e de lágrimas, como somente uma mãe consegue interceder por seus filhos. Foi também — por que não? — um trabalho de parto, como foi o de Benjamim, o caçula de todas as tribos cujo nascimento levou Raquel à morte. Aqui Raquel deu literalmente a vida pelo filho mais novo, do mesmo modo que Deus enviou seu Filho unigênito para dar a vida pelo mundo. Logo, não havia outra pessoa mais apropriada para protagonizar a profecia de Jeremias.

Se o choro de uma mãe por sua semente espalhada por várias gerações tem esse poder de tocar e comover o coração do Pai, o choro de qualquer mãe por seus filhos tem o mesmo efeito. Nunca despreze o choro de uma mãe, por mais incompreensível que pareça. Ele é precioso aos olhos de Deus. Seu pranto comove os céus e o universo, como o de Raquel, tem o poder de ecoar nas câmaras celestiais e inundar o Livro das Lágrimas do Senhor.

O PODER DAS LÁGRIMAS

Nenhuma figura bíblica mais do que Davi, exceto o próprio Messias, experimentou repetidas vezes o poder esmagador do sofrimento, seja como filho ou como pai, seja como irmão ou como amigo, seja como súdito ou como rei. Ele prefigurava seu descendente maior, o Messias, “homem de dores e experimentado no sofrimento” (Is. 53:3).

Embora os Evangelhos registrem apenas duas vezes que o Messias chorou, podemos imaginar quantas vezes Ele derramou suas lágrimas puras em clamor e intercessão pelas ovelhas perdidas de Israel, bem como durante as dores que lhe atravessaram o corpo e a alma antes e durante sua Paixão. Como seu antepassado Davi, Yeshua conhecia o poder das lágrimas e que nenhuma delas seria esquecida por Deus, mas guardadas em seu odre e registradas no Livro das Lágrimas, usado por santo memorial perante o Pai.

As lágrimas sinceras têm a capacidade de tocar o coração de Deus de forma única e servem como catalisador de resposta a muitas orações. Ao serem transportadas para as páginas do Livro das Lágrimas, se converterão em relatos e histórias indeléveis, acariciadas por Deus por toda a eternidade.

Imagem: Pinterest

[1] Berachot 32b.

[2] Eicha Rabbah 1.

Leia também:

O Incenso Agradável e o Fogo Estranho

Tabernáculos e a Fragilidade da Sukkah

Sua assinatura não pôde ser validada.
Você fez sua assinatura com sucesso.

A OLIVEIRA NATURAL

Newsletter

Assine nossa newsletter e mantenha-se atualizado de notícias e temas sobre as raízes judaicas do cristianismo.

Explore com profundidade as Festas do Senhor e conheça mais sobre nossas raízes.

Compartilhe, curta e siga-nos: