Tabernáculos e a Fragilidade da Sukkah

Tabernáculos e a Fragilidade da Sukkah

6 de Outubro, 2025 2 Por Getúlio Cidade

Tabernáculos é uma das Festas mais celebradas na Torá, repleta de simbolismos e significados profundos, e tem seu cumprimento profético no futuro, quando for instaurado o governo messiânico sobre a Terra. Seu maior símbolo é, sem dúvida, o elemento que dá nome à Festa — a sukkah. Nesse artigo, vamos compreender a relação entre a Festa de Tabernáculos e a fragilidade da sukkah.

Sukkah (nome convencional transliterado de סוכה) significa cabana ou barraca. Sua maior característica é ser uma habitação temporária e rústica. Por sua fragilidade, seus habitantes ficam vulneráveis às mudanças de clima e a agentes externos, sejam humanos ou animais. O mandamento divino de se habitar em uma sukkah tem o propósito maior de relembrar o povo de como habitaram seus antepassados no deserto. Ao fazerem isso, por sete dias no ano, eles experimentam um pouco da vulnerabilidade que experimentaram seus pais no Sinai. Não havia alternativa de habitação. Era necessário confiar totalmente na proteção divina.

Após a partida de Moisés que se despedira do povo do lado leste do Jordão, Josué (Yehoshua Ben Nun) conduziu o povo à conquista da Terra Prometida. O maná cessou instantaneamente e eles passaram a experimentar da provisão da terra que mana leite e mel, incluindo a produção opulenta de seus sete frutos preciosos. Plantaram vinhas, construíram casas e cidades muradas que lhes serviram de fortalezas. Ainda assim, usufruindo de toda a plenitude e segurança, uma vez ao ano, cumpriam o mandamento de habitarem em uma sukkah. Esse mandamento é observado até os dias atuais.

Uma vez ao ano, Deus pede que seu povo volte a ficar vulnerável. Viver numa sukkah é um exercício de fé, exigindo total confiança em Deus. O povo experimenta a mesma sensação de insegurança física de quem habitava em um ambiente hostil como o deserto, em moradas cuja estrutura era incapaz de protegê-los de uma invasão inimiga ou de animais vorazes. No entanto, aquele mesmo povo nômade, ao olhar para fora de suas tendas, a primeira coisa que via era a nuvem de glória sobre o Tabernáculo, durante o dia, ou uma coluna de fogo durante a noite. Ambos asseguravam os israelitas da presença imponente de Deus sobre si. Essa era a real proteção de Israel!

ABRIGO EM MEIO AO JUÍZO

Após pregar sua mensagem de arrependimento em Nínive, Jonas decide sair da cidade e erguer uma sukkah do lado de fora, a leste (Jn. 4:5). De lá, teria uma perspectiva de Deus ao lidar com seus habitantes. Ele sabia que o juízo era iminente e preferiu se abrigar em um local desprotegido do homem, mas protegido por Deus. Não examinaremos aqui as expectativas de Jonas como profeta, mas unicamente sua fé.

Ele bem sabia que Deus era fiel para cumprir sua palavra de juízo e não podemos deixar de louvar aqui sua fé. Ele certamente estaria melhor abrigado dentro dos muros da cidade que era uma imensa fortaleza, bem murada e protegida contra inimigos externos. Contudo, preferiu se abrigar do lado de fora, em uma sukkah, sabendo em seu íntimo que a verdadeira proteção não está no que é visível, mas na força invisível do Deus de Israel. Ele sabia que, dentro da cidade, estaria sujeito ao castigo de Deus, o que seria muito pior do que qualquer ameaça humana fora de seus muros.

Jonas temeu mais a Deus do que os homens e isso é digno de nota. Isso não deveria surpreender, uma vez que ele aprendeu a depender completamente de Deus após passar três dias e três noites dentro do grande peixe. Ali sua vida esteve por um fio, muito pior que em uma frágil sukkah que nem mesmo foi capaz de protegê-lo do sol implacável, em um lugar desconhecido e não menos hostil. Através da terrível prova no mar, Jonas compreendeu o significado da Escritura: “O Senhor está comigo; não temerei. Que me poderá fazer o homem?” (Salmos 118:6)

Imagem: Pinterest

A EFEMERIDADE DA SUKKAH

A sukkah não era apenas erguida para celebrar a Festa de Tabernáculos. Nos tempos bíblicos, servia também de habitação temporária e abrigo para homens e animais, especialmente ao se pastorear gados e rebanhos. Em Gênesis 33:17, Jacó construiu barracas para proteger o gado e por isso chamou o lugar de Sukkot. Também era erguida para abrigar pessoas durante a colheita. Em Isaías 1:8, o Senhor diz que “a filha de Sião é deixada como uma sukkah na vinha”. Essas passagens mostram o caráter efêmero da sukkah; ela nunca foi permanente.

De um ponto de vista mais reflexivo e filosófico, a sukkah é um retrato simbólico da vida humana. Ela aponta não somente para sua vulnerabilidade aos elementos externos, mas por sua incapacidade de contê-los e mudar sua direção. Basta um vento mais intenso ou uma tempestade para desfazê-la ou arruiná-la. Essa fragilidade foi registrada de modo poético por Isaías, ao escrever: “Toda a carne é erva, e toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor” (Isaías 40:6,7).

Tal como a flor do campo, a sukkah também se desfaz perante o sopro de Deus. Assim como sua fragilidade é exposta pelos elementos externos, nossas fraquezas físicas e emocionais são reveladas nas intempéries que se abatem sobre nós. Pedro, no fim da vida, em sua sabedoria apostólica, compreendeu isso como ninguém ao assemelhar seu corpo a uma sukkah para indicar que estava próximo de sua partida desse mundo (2Pedro 1:14).

Em contraste à efemeridade da sukkah, está a fidelidade de Deus que dura para sempre. A confiança de Israel, no deserto, não estava na segurança de suas tendas, mas na nuvem de glória que as guardava. Assim como Jonas e tantos profetas da antiguidade, eles sabiam que sua proteção estava na Rocha de Israel; sua confiança estava firmada em suas promessas. O Salmo 31:20 se refere à sukkah do Senhor como refúgio para os que nele confiam. Nossa sukkah pode ser frágil, mas temos uma sukkah inabalável que é o esconderijo do Altíssimo, onde encontramos paz e descanso (Sl. 91:1).  

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“MEU PODER SE APERFEIÇOA NA FRAQUEZA”

A falibilidade e a fraqueza humanas são ilustradas na sukkah para se referir a uma das promessas mais aguardadas por Israel, a se cumprir no fim dos dias. Trata-se da restauração da dinastia de Davi, em Amós 9:11, em que o Senhor promete levantar a sukkah caída de Davi, reparando suas brechas e erguendo-a de sua ruína.[1]  

Um dos requisitos para se construir uma sukkah kosher é que seu teto, formado por galhos de árvores e plantas, tenha brechas para o céu, de onde se possa olhar as estrelas à noite. Essas brechas são intencionais; uma forma de contemplar o lugar da habitação de Deus. As brechas também simbolizam os defeitos e falhas do ser humano. Elas nos lembram que somos criaturas imperfeitas e passageiras, de altos e baixos, buscando sucesso em nosso destino, porém, muitas vezes, terminando em ruínas, como ocorreu com a dinastia de Davi. Por outro lado, essas mesmas brechas nos permitem olhar para o alto e saber que há um Deus Criador que se assenta sobre o Trono de onde rege o universo.

Por intermédio do Homem perfeito — o Filho de Davi — o Senhor promete restaurar a dinastia caída, levantando-a de suas ruínas e elevando-a a um nível de glória, como no passado, porém, perfeito e eterno. A manifestação do Filho, na forma humana e frágil da sukkah, constitui-se na maneira predileta de Deus operar seus desígnios. Ele escolhe as coisas simples e humildes para revelar seu poder e sua glória.

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“Do pó Ele levanta o pequeno, e do monturo ergue o necessitado; Ele os faz assentar com os príncipes, com os príncipes do seu povo” (Sl. 113:7-8). Foi exatamente isso que Deus fez com Davi e também com Yeshua. De seu corpo humano, esmagado e deformado pelo sofrimento, o Senhor o ressuscitou num corpo glorioso e imortal, concedendo-lhe todo poder e autoridade no céu e na Terra. Foi isso que o Senhor ensinou a Paulo: “o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co. 12:9), quando o encorajou diante das muitas tribulações, angústias e aparentes fracassos que cercavam o apóstolo dos gentios.

Ao pedir que seu povo fique vulnerável uma vez ao ano, habitando em frágeis estruturas, o intuito de Deus é lembrar a seus filhos de que suas vidas são como a sukkah, como a flor do campo que logo seca e cai.  Entretanto, é vivendo na tibieza dessa matéria carnal de onde contemplamos as estrelas, como as promessas feitas a Abraão, comemos do maná que vem do alto e bebemos da água da rocha. E é dessa mesma frágil sukkah de onde vemos sua nuvem de glória nos guiando e nos protegendo ao longo de nossa jornada. Esse é um dos mais valiosos ensinamentos da Festa dos Tabernáculos.


[1] O termo amplamente conhecido por Tabernáculo de Davi é, na verdade, Sukat David. Para entender a diferença, leia O Significado do Tabernáculo de Davi em Sukkot.

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