O Último Refém e a Redenção de Israel

O Último Refém e a Redenção de Israel

1 de Março, 2026 0 Por Getúlio Cidade

No dia 26 de janeiro, após um enorme esforço de buscas pelas Forças de Defesa de Israel (FDI) em Gaza, foi encontrado o corpo do último refém— Ran Gvili — que foi levado para casa, onde sua família finalmente pôde sepultá-lo. Os fatos que envolveram sua partida e seu retorno chamam a atenção e estabelecem uma poderosa conexão entre o último refém e a futura redenção de Israel.

Ran foi um caso peculiar, juntamente com alguns reféns resgatados anteriormente. Em vez de ser entregue pelo Hamas que o sequestrou, foi achado pelas FDI, o que envolveu uma ação conjunta com as forças de segurança e de inteligência, com um grande aparato de equipamentos de alta tecnologia e um efetivo maciço de militares.

Pode parecer exagero na tentativa de se resgatar apenas um corpo, porém, tal esforço é plenamente justificável dentro da cultura judaica, na qual o sepultamento digno é um imperativo. Um corpo insepulto ou sepultado de modo indigno é tido por grande desonra e ignomínia, de acordo com Eclesiastes 6:3.

PARASHAT BESHALACH

O que muitos de fora considerariam uma coincidência, os judeus consideraram a volta do último refém um fato simbólico para dizer o mínimo, uma vez que no judaísmo não há coincidências. Na semana em que Ran foi trazido para casa, a porção semanal do Shabbat foi Parashat Beshalach que narra diversos milagres após a saída de Israel do Egito como a abertura do Mar Vermelho (Yam Suf), a primeira aparição do maná no deserto, a água que emanou da rocha, em Horebe, e a vitória militar contra Amaleque, vencida com os braços erguidos de Moisés.

Imagem: Pinterest

No entanto, antes de iniciar a sequência de acontecimentos milagrosos, Parashat Beshalach nos conta que, tão logo faraó deixou o povo ir do Egito, Moisés levou consigo os ossos de José porque este havia requerido dos filhos de Israel, cerca de 250 anos antes, sob juramento: “Certamente Deus vos visitará, e então fazei subir daqui os meus ossos convosco” (Êx. 13:19). O ato de Moisés comprovou suas palavras a faraó durante os castigos das dez pragas, de que ninguém nem nada ficaria para trás, nem mesmo um casco de animal (Êx. 10:26).

Embora morto, os ossos de José pertenciam a Israel e, durante dois séculos e meio, permaneceram em terra estrangeira, aguardando sua remoção para seu local de descanso definitivo onde se encontram até hoje — Eretz Israel. O ato de Moisés, além de se cumprir um juramento, foi profundamente significativo e de caráter educativo para a nação recém-nascida. Representava a responsabilidade de um irmão para com o outro. Era a resposta à questão posta por Caim a Deus, após assassinar Abel de que, sim, somos o guarda de nosso irmão. Ninguém deve ficar para trás, nem mesmo seus ossos.

“O PRIMEIRO A SAIR E O ÚLTIMO A RETORNAR”

Ran Gvili tinha 24 anos e era sargento da unidade antiterrorista da Polícia de Israel. No dia 7 de outubro de 2023, ao ouvir que milhares de terroristas do Hamas haviam se infiltrado em Israel, Ran, mesmo com licença médica devido a um ferimento no ombro e prestes a passar por uma cirurgia, vestiu seu uniforme, pegou sua arma e munição, e seguiu direto para a cena de ação.

Várias pessoas que participavam do festival de música Nova, no Neguev, deram testemunho da coragem e bravura de Ran ao salvar centenas de pessoas, colocando-as em uma rota de fuga segura dos terroristas. Ele sozinho lutou contra os invasores e matou dezesseis terroristas. Em seguida, Ran se interpôs entre o kibutz Alumim e os terroristas, impedindo que fosse invadido até quando foi possível, o que salvou um número incontável de vidas e lhe valeu o título de “Escudo de Alumim”. Somente após sua munição acabar, ele sucumbiu aos ferimentos de tiros que recebera.

Seu corpo foi levado pelos terroristas para Gaza, onde permaneceu por 843 dias, sem que ninguém soubesse de seu paradeiro. Somente no dia 26 de janeiro, após intensos esforços, seu corpo foi descoberto em Gaza e retornou para casa. Ran foi o último dos 251 reféns a voltar e, por isso, ficou conhecido como sendo “o primeiro a sair e o último a retornar”, exatamente como ocorreu com José no Egito.

Soldados das FDI realizando buscas em Gaza pelo corpo do Sargento Ran Gvili em janeiro de 2026 (Foto: FDI)

UM SINAL MIRACULOSO

Após a saída dos israelitas do Egito, sob a liderança de Moisés que levava consigo os ossos de José, uma série de milagres ocorreu, a começar pela abertura do mar para que o povo atravessasse para o outro lado, conforme a sequência da porção bíblica de Beshalach relata. A descoberta do corpo de Ran pelas FDI, em Gaza, também revelou um milagre estarrecedor.

Após mais de dois anos e três meses, seu corpo não fora decomposto e ele ainda estava com o mesmo uniforme policial que vestira na manhã fatídica do dia 7 de outubro. Ran que lutara bravamente contra os terroristas e salvara incontáveis vidas estava como se estivesse descansando após cumprir tão nobre missão. Alguns rabinos em Israel fizeram menção imediata a uma história incrível contida no Talmude (tratados Ta’anit 31a e Gittin 57a).

Após a batalha da cidade de Beitar, na Judeia, e da repressão esmagadora da revolta de Bar Kochba, em 136 d.C., os romanos recusaram permitir que os judeus sepultassem os milhares de mortos de Beitar. Apenas alguns anos mais tarde, o decreto foi suspenso e deu-se permissão para o sepultamento. Milagrosamente, os corpos não se decompuseram e puderam receber um sepultamento digno. Neste mesmo dia instituiu-se a bênção para “aquele que é bom e faz o bem”, elevando Deus em ação de graças por preservar os corpos a fim de terem um sepultamento digno.

O milagre parece ter se repetido na história de Israel, na morte de Ran, alguém louvado por todos que o conheciam por seu altruísmo, amor a Deus, amor a sua nação e ao próximo. Seus atos de heroísmo comprovaram isso, sacrificando sua vida por seus irmãos compatriotas. Yeshua ensinou que esta é a expressão maior de amor: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (João 15:13).

UNIDADE E REDENÇÃO

Após exaustivas buscas, os soldados das FDI foram tomados de grande comoção, bem como a nação sentiu um enorme alívio com o fim do drama e do fardo dos reféns, o que durou mais de dois anos. Muitos soldados choravam copiosamente no local e muitos deles se abraçaram como um só corpo, cantando Ani Ma’amin. Este é um cântico messiânico tradicional que fala da futura redenção de Israel. A letra diz: “Eu creio com fé completa na vinda do Messias. E, ainda que Ele demore, mesmo assim esperarei por Ele todos os dias até que venha”. Foi um canto profético para esse tempo.

Comoção dos soldados das FDI ao encontrarem o corpo de Ran Gvili
Soldados das FDI, após encontrarem o corpo de Ran Gvili, se abraçam e entoam Ani Ma’amin – Eu Creio – uma canção profética sobre a vinda do Messias de Israel.

Essa demonstração de fé e unidade não foi apenas entre os soldados das FDI. Houve demonstrações de enorme respeito por todo o povo, durante o cortejo fúnebre, e no ajuntamento na Praça dos Reféns, em Tel Aviv, bem como em várias partes do país, em silenciosa homenagem e de profundo reconhecimento para receber seu filho de volta. Seu funeral teve a presença de muitas autoridades, incluindo o primeiro-ministro e o presidente do país, foi acompanhado por milhares e teve de ser limitado por questões de segurança.

Centenas de policiais se alinharam nas ruas de Israel para saudar o comboio que carregou o corpo de Ran Gvili (Nir Elias/REUTERS)
Itzik Gvili, pai de Ran, beija o caixão do filho em seu funeral, em 28/01/2026 (Foto: Shilo Fried)

Tal unidade foi um símbolo profético do preparo da nação para receber o Messias. O sacrifício de Ran e o sinal miraculoso de sua morte apontam para isso. Sabemos que a redenção de Israel virá quando estiverem juntos como um só homem, debaixo de grande tribulação, clamando pela vinda de seu Redentor. Essa unidade em torno da dor, especialmente após os ataques de 7 de outubro, está mais forte do que nunca e aumentará até o fim.

Não há como olhar para a história de Ran, “o primeiro a sair e o último a retornar” e não lembrar das palavras de Yeshua de que “os últimos serão os primeiros e os primeiros os últimos”. Os judeus foram os primeiros a sair para a Grande Comissão e serão os últimos alcançados por ela a entrarem no Reino de Deus, no dia quando, de Sião, vier o Libertador para desviar de Jacó as suas impiedades (Rm. 11:26).

Ran Gvili, além de herói de Israel, é um símbolo profético da redenção de sua nação. Que sua memória seja abençoada!

Ran Gvili, “o primeiro a sair e o último a retornar” – eterno herói de Israel (arquivo da família)

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