A Dor da Despedida e o Sofrimento

A Dor da Despedida e o Sofrimento

Quando o Hamas invadiu o sul de Israel, no dia 7 de outubro de 2023, dentre todos os crimes hediondos que cometeu, levou cativa para Gaza, do kibutz de Nir Oz, a família Bibas. Seus membros foram separados ao serem levados pelos terroristas, sem saber que a dor da despedida e o sofrimento que lhes eram impostos naquele momento seriam permanentes. O trauma experimentado por essa e tantas outras famílias, assim como por todo Israel, suscita uma pergunta dura e inevitável: Onde está Deus em meio à tragédia e ao sofrimento?

Naquela fatídica manhã, a família Bibas permaneceu trancada no abrigo de segurança durante a invasão, mas foram vencidos pelos terroristas que estavam fortemente armados e preparados para tal, agindo com toda covardia a seu alcance. Yarden Bibas fez o que pôde para defender sua esposa, Shiri Bibas, e seus filhos, Ariel, de 4 anos, e Kfir, de apenas 9 meses. Mas não pôde resistir aos terroristas que os subjugaram e os levaram reféns para Gaza, não sem antes matar friamente os pais de Shiri. Na ida para Gaza, separaram Yarden de Shiri que ficou sozinha com as crianças.

A imagem de Shiri capturada por vídeo, já em Gaza, envolvendo seus dois filhos no colo, abraçando-os com uma colcha de cama, com um olhar de aterrorizada, é desoladora. Seu desespero, ao saber o que significa para um judeu ser levado à força para Gaza pelas mãos de terroristas, e sua determinação em proteger seus filhos toca-nos profundamente. São sentimentos paradoxos e complexos, e sua reação como mãe deveria suscitar a solidariedade de toda e qualquer pessoa, independentemente de raça, cultura ou religião.

Shiri Bibas, em Gaza, com os filhos Ariel (4) e Kfir (9 meses), após ser sequestrada por terroristas no dia 7 de outubro de 2023 (Via X)

Yarden Bibas permaneceu quase 500 dias isolado em cativeiro e foi liberto na negociação de reféns no final de janeiro, regressando a Israel para encarar a dura realidade da ausência da mulher e dos filhos que ainda estavam de posse do Hamas. Apenas no fim de fevereiro, em mais uma etapa da primeira fase do cessar-fogo, soube-se que Shiri e as duas crianças haviam sido assassinadas em cativeiro, em novembro de 2023. Elas foram estranguladas fria e cruelmente pelos terroristas, segundo perícia dos médicos legistas das Forças de Defesa de Israel (FDI) e do governo israelense, contrariando a alegação do Hamas de que foram mortas por bombardeio das FDI em Gaza.

O Hamas montou seu teatro de propaganda ao entregar os corpos para a Cruz Vermelha, em uma cerimônia abominável, em que centenas de habitantes de Gaza, incluindo muitas crianças, se ajuntaram para festejar a morte de judeus inocentes assassinados por eles. As imagens correram por toda a internet e, se isso tem algum lado bom, foi que o Hamas mostrou sua verdadeira face ao mundo. Pessoas que, após isso, persistem em defender esse grupo terrorista, alegando que são um grupo de resistência ou algo similar, é porque têm sérios problemas morais. Nada justifica esse tipo de ação. Sequestrar e torturar mulheres e crianças é um crime de guerra e crime contra a humanidade. Matar prisioneiros covardemente, idem.

Por serem os prisioneiros mais novos entre os cerca de 250 sequestrados, Ariel e Kfir passaram a ser um símbolo da luta de Israel, que já dura quase um ano e meio, para trazer todos os reféns de volta. Seus retratos e pôsteres estavam em todo lugar, em Israel e em todas as comunidades judaicas do mundo. Não houve uma só manifestação, dentro ou fora de Israel, em que suas fotos não fossem exibidas ou seus nomes pronunciados. Shiri virou um exemplo de supermãe que, nas palavras do primeiro-ministro Netanyahu, buscou proteger seus filhos como uma leoa. Havia grande expectativa na volta dos três, especialmente após a libertação de Yarden, mas a notícia de sua morte devastou o país inteiro.

Yarden, Ariel, Shiri e Kfir Bibas (Foto: arquivo da família)

UM FUNERAL NACIONAL

No dia 26 de fevereiro, o país inteiro parou literalmente para participar do funeral dos três reféns. Calcula-se que centenas de milhares de pessoas foram às ruas para prestar suas homenagens. Elas pareciam ter perdido um ente querido próximo. Era como se Shiri fosse uma irmã ou filha e seus filhos como sobrinhos ou netos de todos os israelenses. A família pedira privacidade e tentou fazer uma cerimônia simples, mas isso foi impossível, tendo todo o cortejo sido transmitido ao vivo e em rede nacional por toda a mídia. A dor da tragédia uniu o país de modo tão forte que todos se sentiam parentes dos falecidos. O deslocamento da van com os corpos se estendeu por mais de 100 km, de Rishon Letzion a Tzohar, atraindo um mar de pessoas que choravam compulsivamente como se tivessem também perdido um filho, refletindo o impacto tremendo que suas mortes tiveram na nação.

Pessoas seguravam bandeiras de Israel e bandeiras laranjas. Muitos também se vestiram com lenços laranjas e soltaram balões da mesma cor. O laranja passou a ser um símbolo dos reféns por causa do cabelo ruivo de Ariel e Kfir. Usar laranja foi uma forma carinhosa de se referir à família Bibas. Na noite que antecedeu o funeral, o Knesset e a casa do presidente de Israel foram iluminados de laranja. As FDI usaram laranja em suas postagens, ao longo do dia, e o governo de Israel mudou até a cor de seu perfil, nas redes, de azul para laranja na bandeira do país. Todos, sem exceção, incluindo as FDI, usavam a palavra Slicha que significa “perdão”. Ouvia-se gritos pungentes de Slicha no meio da multidão. Pediam perdão como forças armadas e como cidadãos por não terem conseguido proteger Shiri e seus filhos dos monstros terroristas. Foi uma comoção nacional inédita.  

Assisti ao funeral completo que foi transmitido em vários canais da imprensa israelense. Foi algo muito comovente e me pareceu que essa dor sentida pelo país inteiro será a marca mais profunda do 7 de outubro por muitas gerações. Shiri e seus filhos foram sepultados juntos em um mesmo caixão, inseparáveis na vida e na morte. Sobre a sepultura, havia uma montanha de flores, a maioria de cor laranja. A dor da despedida foi mais sentida no discurso de Yarden Bibas, que usava um quipá laranja, para sua amada Shiri e seus amados filhos. Ele conseguiu falar, apesar do choro contínuo. Não era preciso entender hebraico para ficar com o coração despedaçado.

Pessoas enlutadas enchem as ruas para se despedir de Shiri Bibas e seus dois filhos, Ariel e Kfir, cuja morte trágica no cativeiro se tornou um símbolo doloroso do luto e da resiliência da nação (Fotos fornecidas pelo público)

O PROBLEMA DO SOFRIMENTO

Enquanto ouvia o discurso, em meio às lágrimas de Yarden Bibas, inevitavelmente, veio à mente a pergunta: “Por quê, Senhor?” Quem acompanhou o drama e o sofrimento das famílias dos reféns, em especial, o da família Bibas, deve ter feito a mesma pergunta. É inerente a nós, seres humanos, questionarmos a Deus para buscar compreender o porquê de uma tragédia. Jó também o questionou perante sua tragédia pessoal e o sofrimento dela decorrente.

Questionar a Deus não é pecado. O problema é que nem sempre teremos a reposta esperada, assim como Jó não a teve, e nossas expectativas serão frustradas. E aqui jaz o ponto crucial de toda a história. A tragédia e o sofrimento — por mais difícil que seja aceitar — cumprem algum propósito divino. Foi assim com Jó e não é diferente em nossas vidas. Independentemente da responsabilidade do homem em suas ações, pautadas pelo livre arbítrio e pelo qual será julgado pelo Justo Juiz, Deus usa a tragédia e o sofrimento para nos corrigir ou ensinar algo muito importante, por mais doloroso que seja. Todos que já experimentaram um sofrimento profundo podem assim atestar. No final, tornamo-nos mais parecidos com Ele que, entre outros nomes nobres, também é conhecido como “Homem de dores e experimentado no sofrimento” (Is. 53:3).

Isso também me remete às palavras de Oséias 6:1: “Ele nos despedaçou, mas nos sarará; fez a ferida, mas a ligará”. Ao assistir ao funeral dessa mãe dedicada e suas crianças, não tive dúvida que Deus está lidando não apenas com a família Bibas ou com os habitantes de Nir Oz, mas com toda a nação de Israel, quebrantando seu coração, tocando no que lhe é mais valioso, para humilhá-la e transformá-la. Não significa que Deus esteja alheio ao sofrimento humano (é exatamente o contrário).

C.S. Lewis, um dos meus autores favoritos, escreveu em O Problema do Sofrimento que Deus fala à nossa consciência, mas brada em nosso sofrimento. E que o sofrimento é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo. Essa foi uma das coisas mais fortes que já li na vida e reputo tal declaração como irretocável. Ele não escreveu isso por ser um ganhador do prêmio Nobel de Literatura (o que de fato ganhou), mas da sabedoria adquirida na dor de ter experimentado na pele o sofrimento de perder sua esposa muito cedo para um terrível câncer. Não há maneira mais eficaz de ouvir a Deus do que em meio ao sofrimento. Minha percepção é que todo Israel está ouvindo a voz de Deus agora, de um modo ou de outro, além de estar unido como uma só família pelos últimos acontecimentos.

Do mesmo modo, essa situação me faz lembrar da história de José e seus irmãos no Egito, bem como na dor que ele sentiu ao ver seu irmão caçula Benjamim, sem poder se revelar até que chegasse o momento exato para isso. Ele teve que se esconder umas duas vezes de sua vista para chorar em oculto. Explorei muito essa passagem no último capítulo do volume 2 de A Oliveira Natural, o gran finale que tipifica o encontro do Messias com todo Israel, algo que se dará debaixo de grande tribulação, assim como foi o segundo encontro de José com seus irmãos.

José se revela a seus irmãos no Egito (Pinterest)

Yeshua não apenas vê, mas também sente todo o sofrimento da nação de Israel, desde sua fundação, e agora não é diferente. E se alguém perguntar onde estava Ele em meio a essa tragédia, estou certo de que estava chorando em oculto, tal como José, em suas câmaras celestiais, longe de todo olhar, ao ver a dor e as lágrimas de seus irmãos judeus, unidos como uma só alma, naquele funeral que comoveu o país. Ele chora em oculto e espera o arrependimento da Casa de Jacó, como fez José, aguardando o momento certo para se revelar a seus irmãos, quando poderá abraçar e beijar cada um deles.

A guerra, ou as guerras travadas em Israel estão longe de acabar. O conflito é permanente, independentemente de cessar-fogo ou até mesmo do mirabolante plano do presidente norte-americano de tornar Gaza uma Riviera do Oriente Médio. O problema é muito mais profundo e complexo, pois sua origem, como não canso de falar e escrever, é espiritual. Por ora, vamos nos unir como corpo do Messias em oração por Israel, para que Ele se revele a cada coração humilhado e quebrantado nessa hora tão difícil para a nação. Ao fazer isso, estamos apressando a vinda do Messias, pois seu Reino só será instaurado na Terra após a restauração de Israel, a Oliveira Natural na qual fomos enxertados para sermos participantes de sua seiva pela misericórdia e graça divinas.


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