Yom Kippur e os Dias de Temor

Yom Kippur e os Dias de Temor

1 de Outubro, 2025 0 Por Getúlio Cidade

Ao pôr do sol de hoje se inicia Yom Kippur — o Dia da Expiação —, a segunda das Festas do Outono que apontam para a segunda vinda do Messias. O lado profético dessa Festa do Senhor aponta para a redenção de Israel como nação, o que se dará no fim dos dias, conforme anunciado pelos profetas, especialmente Isaías, Jeremias, Zacarias, e pelo apóstolo Paulo em sua carta aos romanos. Essa redenção não virá sem que haja um tempo de extrema dificuldade para os judeus. Compreender o significado de Yom Kippur e os Dias de Temor — tempo designado para essa provação — é crucial para se compreender o fim dos tempos.

Yom Kippur contém uma atmosfera de peso pelo juízo iminente, tal qual em Rosh HaShanah. A diferença, porém, recai na irreversibilidade do juízo. Em Rosh HaShanah, os livros são abertos e se inicia o julgamento. Foi exatamente isso que João descreveu em seu arrebatamento no livro de Apocalipse. Entre Rosh HaShanah e Yom Kippur, há dez dias, os últimos da Teshuvah iniciada em Elul, porém, mais intensos e pungentes. São conhecidos como Dias de Temor, dada a gravidade do tempo que precede Yom Kippur. Esse período implica em grande reverência e temor a Deus, pois o juízo está à porta. E por ser um período ainda dentro da Teshuvah, o juízo não está selado. A inscrição no livro da vida pode ser alcançada por todos e esse é o propósito de se fazer Teshuvah.

Em Yom Kippur, as portas são fechadas e todos os homens estarão selados definitivamente para a vida eterna ou para a morte eterna. Yeshua se referiu ao fechamento das portas em suas parábolas sobre o Reino de Deus, sempre com alusão à sua volta, como na Parábola das Dez Virgens. Isso não passou despercebido de sua plateia que era praticamente toda de judeus que conheciam muito bem sobre o Dia da Expiação e a cerimônia de fechamento das portas no Templo, ao final desse dia solene.[1]

Cerimônia de fechamento das portas do Templo pelos sacerdotes, antes do pôr do sol, ao término do longo serviço de Yom Kippur. Crédito da imagem: Temple Institute/Jerusalém

OS DIAS DE TEMOR

Os Dias de Temor são um período de profundo pesar espiritual, em que as orações se multiplicam, os homens se humilham em pedidos de perdão e clamam a Deus por misericórdia. Isso ocorre exatamente agora, em Jerusalém, onde milhares de judeus se reúnem na cidade velha, na área do Muro Ocidental (HaKotel HaMa’aravi), mais conhecido pelos gentios por Muro das Lamentações, a fim de clamarem em uníssono a Deus por suas vidas, suas famílias e sua nação. Esse tom dramático dos Dias de Temor segue um crescendo a partir de Rosh HaShanah e atinge seu ápice em Yom Kippur.

São dias de privação de prazeres, de mais oração e jejum, culminando com Yom Kippur, dia em que a nação inteira jejua por 25 horas para pedir por graça e misericórdia — dois dos atributos mais marcantes embutidos no Nome sagrado de Deus com que se revelou a Moisés no Sinai. O Dia da Expiação é melhor ilustrado no livro de Joel. Toda a atmosfera ali descrita se encaixa nesse dia solene: a convocação ao povo, incluindo os bebês; o espírito de humilhação com vestimentas de pano de saco; a proclamação de um jejum geral; a interrupção das luas de mel; e o choro no altar seguido do clamor dos sacerdotes de “Poupa a teu povo, ó Senhor!” (Jl 2:17).

Embora abranjam apenas dez dias, deve ser visto como um período profético que ocorrerá no fim dos dias e são chamados nos profetas de Tempo de Angústia de Jacó ou Dores de Parto do Messias. É o mesmo tempo aludido em Daniel 12:1 e pelo próprio Yeshua em Mateus 24:21. Ao trazer a revelação sobre os tempos do fim, Gabriel diz a Daniel: “E, naquele tempo, se levantará Miguel, o grande príncipe, que se levanta pelos filhos do teu povo, e haverá um tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação até àquele tempo; mas, naquele tempo, livrar-se-á o teu povo, todo aquele que se achar escrito no livro” (Dn. 12:1). Há três aspectos relevantes para se destacar nessa passagem altamente simbólica sobre os dias do fim.

O primeiro é que há um príncipe guerreiro, à frente de um exército celestial, chamado Miguel, que peleja por Israel para protegê-lo. Nos tempos do fim, ele será o grande protagonista nas batalhas invisíveis de Israel, travadas no espírito, que se refletem no mundo natural. O que Gabriel quis dizer é que, quanto mais nos aproximamos dos últimos dias, Miguel entrará cada vez mais em ação para defender Israel, exatamente como já ocorre em nosso tempo.  

O segundo aspecto é a palavra tempo — עת (et) — que, apenas nesse versículo, ocorre quatro vezes. Em nenhum outro lugar das Escrituras essa palavra é tão repetida. Repetições consecutivas no hebraico bíblico nunca são mero acidente linguístico, mas se revestem de algum significado. Nesse caso específico, a repetição de et (que também pode ser época, período, ocasião) mostra que a revelação de Deus não é abstrata nem aleatória, mas se desdobra em uma ordem definida de momentos sobre os quais Ele governa e detém absoluto controle. A repetição do termo em contextos como esse mostra que cada promessa possui uma hora estabelecida para seu cumprimento, segundo a ordem divina.

O terceiro aspecto é a referência quase que direta ao tempo das Festas do Outono (as repetições de et não são por acaso), a saber, no “tempo de angústia” que são o período de maior provação na história de Israel (o mesmo mencionado por Jesus em seu sermão profético em Mateus 24) — simbolizado pelos dez Dias de Temor. Além disso, há a menção a Yom Kippur nos nomes inscritos no livro. Em Yom Kippur, todos os nomes estarão definitivamente selados no livro da vida ou da morte. Perceba que o aviso de Gabriel se refere exclusivamente ao povo judeu. São eles o povo de Daniel, cujos nomes estão inscritos no livro — o remanescente — que serão livres de modo sobrenatural desse período de terríveis juízos.

Imagem: Pinterest

AS NAÇÕES CONTRA ISRAEL

Uma das formas de juízo nos últimos dias se dará em um conflito mundial, quando as nações se levantarem contra Israel, o que é profetizado em detalhes por Ezequiel, na batalha de Gogue que, na tradição judaica, representa a Rússia — a nação que vem do norte. Por esse motivo, a Rússia é uma nação-chave quando analisamos as profecias dos tempos do fim. Há mais de dois anos e meio, quando ela invadiu a Ucrânia, escrevi que poderíamos estar testemunhando o início da guerra de Gogue-Magogue.

Nesse artigo, ressaltei que o conflito tinha o potencial de evoluir para uma guerra mundial, ao longo do tempo, e que poderia terminar com um ataque maciço sobre Israel com a participação de outras nações. É justamente nessa guerra, encabeçada pelo antimessias, para invadir a Terra Santa, sitiar Jerusalém e exterminar o povo judeu que Yeshua voltará para salvar seu remanescente. Há muitas profecias a respeito, no Antigo e Novo Testamentos.

Sabe-se que tais nações serão movidas por espíritos malignos que inflamarão seus líderes em todo o mundo para a grande batalha em Armagedom (Meggido), conforme Apocalipse 16:14-16. É exatamente nesse contexto que Jesus diz: “Eis que venho como ladrão!” (v.15), conectando sua segunda vinda a esse conflito de grandes proporções. Esse também é o contexto do Yom Kippur futuro em que o “remanescente de Jacó” será salvo de seus inimigos. Eles o reconhecerão por Messias, chorarão sobre Ele (Zc. 12:10) e serão todos salvos, conforme destacado por Paulo (Rm. 11:26).

Paisagem do vale de Jezreel, vista de Meggido, norte de Israel, palco da grande batalha final (Imagem: iStock)

CONFLITOS ATUAIS E PROFÉTICOS

A data infame do 7 de outubro de 2023 está prestes a completar dois anos, quando os terroristas do Hamas invadiram o território judeu e cometeram as atrocidades que deflagraram a atual guerra em Gaza. Este é o conflito mais longo travado pelo Estado novo de Israel desde sua independência em 1948. Ele arrastou consigo outros levantes de facções terroristas que se aproveitaram para atacar Israel. Foi o caso do Hezbollah, que levou o Líbano a mais uma guerra no ano passado, e dos Houthis no Iêmen. Além disso, a Jihad Islâmica intensificou os ataques nos territórios de Judeia e Samaria.

Além do ódio aos judeus, todos esses grupos terroristas têm em comum serem sustentados financeiramente e militarmente pelo Irã, o arqui-inimigo de Israel. A estratégia do regime iraniano é manter Israel atolado em conflitos gerados por essas facções, com intuito de enfraquecê-lo, a fim de poder dar o sonhado golpe final que “varrerá Israel do mapa”. Para combater essa estratégia, Israel decidiu, em junho passado, fazer um ataque preemptivo contra o Irã (a cabeça da serpente) com o propósito de incapacitar seu plano de desenvolver armas nucleares para serem empregadas contra si, originando a Guerra dos Doze Dias.

Israel ganhou esse round ou essa batalha, mas a guerra não terminou. O programa do Irã não foi extinto e agora tem o apoio da Rússia e da China que desafiam abertamente os Estados Unidos com suas sanções ao programa nuclear iraniano, bem contra o mecanismo de snapback ativado pela ONU na semana passada. Ambos os lados — Israel e Irã —, exatamente agora, se preparam para a próxima rodada de ataques que virá mais cedo ou mais tarde. O problema é que, dessa vez, o embate pode atrair nações mais fortes e poderosas militarmente para o conflito. Enfatizo que o maior inimigo de Israel na atualidade, o Irã, tem apoio da Rússia, a nação “do extremo norte” (Ez. 38:15), que já prometeu apoio financeiro e técnico para restabelecer o projeto nuclear iraniano. Aquele que tem ouvidos que ouça.

Os dez Dias de Temor — correspondentes à Grande Tribulação — apontam para o período de maior sofrimento e perseguição do povo judeu, como dizem as Escrituras e o próprio Yeshua. O antissemitismo é o maior sinal disso e nunca foi tão elevado, como atualmente, desde a época da Segunda Guerra. Infelizmente, ele não arrefecerá, ao contrário, os inimigos de Israel e do Deus de Israel o usarão como arma para normalizar as hostilidades contra o povo de Daniel nos últimos dias. Essa é a atmosfera em que Israel se encontrará imediatamente antes da volta do Messias.

Entretanto, antes do retorno de Yeshua aos olhos de toda a Terra, sabemos que haverá dois eventos importantíssimos que marcarão a contagem regressiva: a falsa paz e a abominação desoladora. Independentemente disso e de já nos encontrarmos no Princípio das Dores, com guerras e rumores de guerras, estamos testemunhando as Escrituras se desdobrarem diante de nossos olhos. A guerra vivida por Israel hoje, não apenas em Gaza, mas em diversos fronts, não apenas militar, mas no campo da (des)informação e propaganda antissemita, o impulsiona cada vez mais para um conflito mundial. Tem o potencial de atrair as maiores forças militares do mundo, tendo como foco a disputa por seu território e a perseguição implacável contra os judeus, exatamente como previram os profetas da antiguidade.

Esse será o contexto do fim dos dias; duas grandes e inéditas batalhas capazes de sacudir o mundo, com o epicentro em Jerusalém, ocorrendo simultaneamente em duas dimensões distintas, uma espiritual e outra física. Essa é a conexão entre Yom Kippur e os Dias de Temor que deflagará a volta do Messias para salvar o remanescente de Israel e, em seguida, estabelecer seu Reino milenar em Jerusalém. Bendito seja seu Nome para todo o sempre!


[1] No capítulo 2 do volume 2 de A Oliveira Natural, explica-se com detalhes toda a cerimônia de Yom Kippur, incluindo o fechamento das portas, e todo seu simbolismo messiânico.

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