Rosh HaShanah e o Arrebatamento
A Festa das Trombetas, também conhecida por Rosh HaShanah, inaugura as Festas do Outono e está ligada a vários eventos escatológicos. Como tópico para esta Festa do Senhor, abordarei Rosh HaShanah e o arrebatamento da igreja, um tema de suma importância à medida que navegamos pelos tempos do fim.
As Festas do Outono apontam para a segunda vinda do Messias e são estudadas detalhadamente no volume 2 de A Oliveira Natural. No capítulo dedicado a Rosh HaShanah, o arrebatamento da igreja é tratado dentro do contexto judaico do Novo Testamento, considerando as palavras de Yeshua nos Evangelhos, as cartas de Paulo e o livro de Apocalipse; tudo em conexão com a Torá e os Profetas. Entretanto, propositadamente, dei pouca ênfase ao momento em que ocorre o arrebatamento na linha do tempo da Grande Tribulação.
TRÊS DOUTRINAS PARA O MESMO EVENTO
As doutrinas pré, pós ou mesotribulacionista que colocam o arrebatamento ocorrendo antes, após ou durante a Grande Tribulação, respectivamente, são de longe o motivo de maior discussão entre teólogos e correntes cristãs de todo tipo durante séculos. Talvez por esse motivo, tenha sido também um dos assuntos que mais li e estudei ao longo dos anos. É possível encontrar base nas Escrituras que apoie as três doutrinas e não faltam versículos a serem citados por seus adeptos. Nem mesmo dentro do judaísmo messiânico há unanimidade. Já vi judeus messiânicos a quem respeito defenderem as três visões, embora as doutrinas pré e meso sejam as prevalentes. No judaísmo em geral, porém, a ênfase na chegada do Messias está na ressurreição dos mortos e sabemos que o arrebatamento não a precederá.
Particularmente, alinho-me às visões pré e mesotribulacionista, e entendo por meso o arrebatamento que pode ocorrer em qualquer ponto do período tribulacionista (última semana de Daniel), não necessariamente na metade. Isso porque as Bodas do Cordeiro são um evento único, apenas entre Yeshua e seus santos remidos. A parábola das Dez Virgens e o livro de Apocalipse deixam isso claro. A verdade, porém, é que ninguém pode asseverar em que ponto exato da Grande Tribulação o arrebatamento ocorrerá.

Outro ponto de interesse é o fim da dispensação dos gentios, mencionada por Paulo, e a consequente preparação do remanescente de Israel para se encontrar com seu Messias. Aqui é crucial a missão dos 144 mil na preparação para essa restauração. Eles são intencionalmente colocados para atravessar toda a Grande Tribulação, sendo os únicos selados especificamente para isso, ninguém mais (Ap. 7:3). Sem esse selo especial será impossível sobreviver por todo esse período que será o mais tenebroso da História.
Quando se compreende que Israel e a igreja são elementos distintos (ver capítulos 9 a 11 de Romanos), os desdobramentos dos eventos futuros fica mais nítido. Há muito que discorrer sobre isso, o que é impossível para um artigo. No entanto, a despeito de se aceitar ou rejeitar qualquer uma dessas doutrinas, há algo muito mais importante e vital a se fazer. E isto é: estar pronto para o encontro com o Senhor quando Ele voltar. Esse deve ser o foco e é aí que devemos concentrar nosso esforço maior.
O arrebatamento ocorrerá, pois foi profetizado por Yeshua e pelos apóstolos. O timing de sua ocorrência é o menos importante. Em planejamento militar, há uma regra básica que é a de se preparar para o pior cenário sempre. Isso vale para a preparação para os dias do fim. Estejamos prontos para enfrentarmos toda e qualquer dificuldade nos tempos adiante que precedem a volta do Senhor, inclusive morrer por amor a seu nome, se necessário for.
COMPREENDENDO AS PROFECIAS
Embora haja muita especulação e interpretações difusas quanto às profecias dos tempos do fim, há dois aspectos importantes a ressaltar. Qualquer interpretação que elimine Israel dos planos de salvação de Deus, substituindo-o pela igreja, é puro reflexo da Teologia da Substituição — doutrina humana responsável pela maioria dos danos causados ao povo judeu por cristãos, ao longo de séculos, e raiz do antissemitismo. O segundo aspecto diz respeito à literariedade da interpretação das profecias, ou de sua esmagadora maioria. Uma interpretação apenas simbólica ou alegórica não corresponde ao histórico do cumprimento profético. Basta olhar para a primeira vinda do Messias e verificar que praticamente todas as profecias relacionadas ocorreram de modo literal. Por que seria diferente em sua segunda vinda?
À medida que nos aproximamos do fim, Deus revelará de modo mais claro as profecias seladas para esse tempo. Isso explica muito a doutrina dispensacionalista, surgida apenas no século XIX, que pôs Israel no centro da equação de Deus para os últimos dias e trouxe maior luz e compreensão sobre os eventos que precederão a volta do Senhor. Embora haja alguns pontos em que eu discorde, analisando-a sob o contexto judaico, é a doutrina mais plausível e coerente na escatologia cristã.
Os críticos dessa teoria usam o argumento de que sua aparição apenas no século retrasado é uma prova de sua fraqueza e falibilidade. Ocorre justamente o contrário, pois a proximidade dos tempos do fim permite maior revelação e compreensão do que foi escrito há milênios pelos profetas. Essa promessa está clara no livro de Daniel, quando ele questionou sobre as visões recebidas dos últimos dias. A resposta foi: “Vai, Daniel, porque estas palavras estão fechadas e seladas até o tempo do fim” (Dn. 12:9). Ou seja, elas serão abertas e reveladas exatamente nos tempos do fim, o que equivale à era em que vivemos. Trata-se de uma revelação progressiva e o dispensacionalismo foi apenas o início. Hoje temos muito mais clareza sobre como se dará o cumprimento de várias das profecias que, até algumas décadas atrás, era um completo mistério.
Por exemplo, como um cristão ou judeu poderia interpretar os capítulos 38 e 39 de Ezequiel, sobre a Guerra de Gogue e Magogue, nos dias do fim, antes de 1948? Como interpretar um ataque avassalador contra Israel vindo do norte, quando não havia nem sombra do Estado novo judeu? Ou como imaginar que, na volta do Messias, “todo olho o verá” (Ap. 1:7) antes da existência da transmissão do sinal de televisão por satélite ao vivo, algo criado apenas na década de 1960? Ou ainda, como conceber a imagem da besta (antimessias) ganhando fôlego e falando no lugar central de adoração dos judeus, em Jerusalém (Ap. 13:15), até o advento, em nossos dias, da inteligência artificial (IA)? Logo, à medida que avançamos rapidamente para a Grande Tribulação, Deus revelará a seu povo, de modo mais nítido, tudo o que foi predito por seus profetas para esse tempo.

NATZAL E HARPAZO
A palavra para arrebatar no hebraico bíblico é natzal (נצל). Ela significa também arrancar, livrar, resgatar, preservar, poupar. Natzal transmite a ideia de uma tomada forçada de algo ou alguém por uma força superior. Ela percorre todo o Antigo Testamento, incluindo as profecias escatológicas, em que se prevê livramento e resgate do povo de Deus, como em Daniel 12:1, em sua variante do aramaico netzal, ou em Joel 2:32. Natzal está presente nas lamentações dos profetas, nos clamores de salmos e nas promessas escatológicas, apontando sempre para a libertação graciosa e poderosa de Deus. O cunho violento de seu significado aponta para o amor de Deus. É como aquele pai ou mãe que vê seu filho pequeno caminhando para um perigo iminente e o toma com violência para si a fim de salvá-lo. Esse é exatamente o conceito.
Natzal é um tema presente como livramento escatológico dos justos na literatura judaica do Segundo Templo, embora não de forma coletiva. Eles preveem a salvação dos justos antes que venha o juízo.[1] O mesmo ocorre de forma individual nas Escrituras (com Enoque e Elias) e parece um símbolo profético do arrebatamento dos santos no fim dos dias. O único a usar o termo de modo coletivo foi Paulo, em sua profecia sobre o arrebatamento, na carta aos tessalonicenses, em sua versão grega, harpazo, que não tem o significado tão abrangente quanto natzal, e equivale a tomar à força, arrebatar, arrancar, puxar.
“Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens (os mortos ressuscitados), a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1Tessalonicenses 4:17). Paulo usa essa mesma palavra para se referir ao seu arrebatamento ao terceiro céu (2Coríntios 12:2-4). Também é a mesma palavra para o arrebatamento físico de Filipe em Atos 8:39. O arrebatamento é bíblico e um dos eventos mais marcantes que envolve a volta de Yeshua, independentemente do tempo exato de sua ocorrência.

A ÚLTIMA TROMBETA
Ao falar da volta do Senhor, o apóstolo Paulo (Rav Shaul) fornece uma chave importante para abrir o entendimento sobre o retorno do Messias. “Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (1 Coríntios 15:51,52).
A trombeta é uma referência ao toque do shofar. Ele é tocado todas as manhãs durante os 30 dias de Teshuvah que precedem o ano novo e se inicia em 1º de Elul. Elul tem 29 dias e, portanto, o último dia do toque de shofar é exatamente no Dia da Festa das Trombetas ou Rosh HaShanah, o primeiro dia do ano novo civil. Por isso, o toque da manhã desse dia é conhecido como a última trombeta ou o último shofar. Entre Rosh HaShanah e Yom Kippur, o período de Teshuvah prossegue, porém, elevado aos Dias de Temor. Ao mencionar a última trombeta, a alusão a Rosh HaShanah está implícita. Essa é a conexão entre Teshuvah, shofar, Rosh HaShanah e a chegada do Messias.
Assim como as Festas da Primavera apontam para a primeira vinda de Yeshua e se cumpriram em um nível de detalhamento literal e profético, temos muitas razões para crer que sua segunda vinda se dará do mesmo modo, quando se iniciarem as Festas do Outono, em algum futuro não muito distante, encabeçadas pela Festa das Trombetas. Não podemos afirmar o ponto exato da linha de tempo da última semana de Daniel que ocorrerá, mas sabemos que ocorrerá.
A última trombeta de Rosh HaShanah anunciará a chegada do Messias e Rei, quando descerá “com grande brado e à voz do arcanjo”, ressuscitando os mortos que dormem no Senhor e arrebatando os vivos que aguardam sua volta (1Ts. 4:16-17). “Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras” (v. 18). Maranata!

[1] Há esse conceito em 1Enoque, 4Esdras e Apocalipse de Abraão, livros que compõem a pseudoepigrafia — uma coleção de escritos judaicos ou cristãos antigos (geralmente entre 200 a.C. e 200 d.C.) que não fazem parte do cânon bíblico oficial da maioria das tradições (judaica ou cristã) e contêm revelações, visões, escatologia, anjos, juízo, messianismo, entre outros temas espirituais. O livro de Enoque é inclusive citado no Novo Testamento em Judas 1:14. Esses livros circulavam nas comunidades judaicas e cristãs apocalípticas antes e durante a época da igreja primitiva.
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