Misturando o Santo com o Profano
Terminam mais um dia de Tisha b’Av (9 de Av) e o período de três semanas conhecido como Bein Hametzarim (Entre os Estreitos). O Shabbat que o precede é conhecido como Shabbat Hazon (Sábado da Visão) devido à visão de Isaías sobre Judá e Jerusalém, conforme a haftará correspondente. Este Shabbat também é conhecido por Shabbat Shechorá ou “sábado negro” por causa da profecia de Isaías que prediz a destruição do primeiro Templo no cerco de Jerusalém. É considerado o mais triste de todos os shabbats e é o oposto do “sábado branco” ou Shabbat Shuvah que precede Yom Kippur. A visão de Isaías é uma dura reprimenda ao povo de Judá após passar muito tempo misturando o santo com o profano.
O povo se corrompera completamente, praticando todo tipo de pecado por um lado e, por outro, alegando servir a Deus, frequentando o Templo e oferecendo sacrifícios conforme a Torá para adorá-lo. Essa abominação de misturar o santo com o profano acendeu a ira de Deus e culminou com palavras de forte repreensão aos judeus. Era um aviso do juízo que havia de vir, mais adiante, com a queda de Jerusalém e com o exílio de Judá.
“De que me serve a multidão dos vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados (…). Quando vindes à minha presença, quem requereu isto das vossas mãos, que viésseis pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs! O incenso para mim é abominação, e também as luas novas, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniquidade nem o ajuntamento solene (…). Pelo que, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço” (Isaías 1:11-15 – AEC).
Mais que uma repreensão, estas duras palavras soam como um desabafo do Altíssimo por ter de suportar a hipocrisia de um povo que alegava servi-lo liturgicamente, porém, com um coração contaminado e anestesiado pelo pecado. O mesmo profeta, em outra parte, expõe essa hipocrisia que foi citada por Yeshua em sua repreensão a alguns dos fariseus. “Bem profetizou Isaías a respeito de vocês, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos humanos’” (Marcos 7:6-7 – NAA).

FALSA ADORAÇÃO
A visão de Isaías sobre a destruição de Jerusalém não foi o primeiro aviso de Deus. Na verdade, por séculos, o Senhor vinha confrontando Israel por seus pecados, falando por intermédio de outros profetas para confrontar sua iniquidade. Asafe, um salmista contemporâneo do rei Davi, foi um canal profético para expressar a intolerância de Deus com o pecado de Israel.
“Escuta, meu povo! Eu vou falar: vou testemunhar contra ti, Israel. Eu Sou Deus, teu Deus: não te repreendo pela falta de sacrifícios nem pelos holocaustos, pois trazes as tuas oferendas dia após dia. Contudo, não tenho necessidade de nenhum novilho dos teus estábulos, nem de bodes dos teus apriscos, pois todos os animais da floresta são meus, como o são as cabeças de gado, aos milhares, nas colinas. (…) De que te serve repetires sem fim os meus preceitos e teres nos lábios a minha aliança? Tu, que detestas as minhas disciplinas e dás as costas às minhas palavras! Ao encontrar um ladrão, a ele te associas como amigo, e com adúlteros te misturas alegremente. Soltas facilmente a tua boca para o mal, e tua língua é hábil para tramar mentiras. Assentas-te à vontade para falar contra teu irmão, e és rápido para caluniar o filho de tua própria mãe!” (Salmos 50:7-20 – KJA).
Amós, outro profeta e um pouco anterior a Isaías, também escreveu a esse respeito:
“Aborreço e desprezo as vossas festas e as vossas assembleias solenes não me dão nenhum prazer. Ainda que me ofereçais holocaustos, juntamente com as ofertas de cereais, não me agradarei deles (…). Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos porque não ouvirei as melodias dos teus instrumentos” (Amós 5:21-23 – AEC).
UM CULTO DESPREZÍVEL
Preste bem atenção na segunda parte das palavras inspiradas de Asafe e veja se tal repreensão não é cabível em nossos dias para todas as igrejas de todos os lugares. Repetem versículos da Palavra de Deus como se fosse um ato supersticioso, ao mesmo tempo em que detestam sua disciplina e se recusam a serem corrigidos, dando as costas para sua Palavra.
Quantos pronunciam em alta voz “não roubarás”, mas se associam a ladrões para saquearem o próprio povo de Deus? Ou quantos clamam a outros “não adulterarás”, porém, misturam-se alegremente e em segredo aos adúlteros para cometer o mesmo pecado que supostamente denunciam? Quantos declaram “não mentirás” e, em seguida, abrem a boca para proferir todo tipo de mentira sem o mínimo vestígio de temor a Deus? Ou quantos se assentam para maldizer seu irmão e pronunciar calúnias por inveja ou vingança?
O quadro mostrado por Amós não é diferente, embora séculos mais tarde, e induz a uma reflexão sobre os dias atuais vividos pela Igreja. A iniquidade tolerada no meio do povo de Deus continua a ser repugnante a seus olhos. Ninguém se justifica de seus pecados subindo a um púlpito para pregar ou pegando num microfone para cantar louvores ou tocar um instrumento, nem fazendo qualquer tipo de trabalho ministerial, social, profissional, seja lá o que for, dentro ou fora da igreja. As palavras de Amós podem e devem ser adaptadas para nosso tempo, o conhecido “tempo da graça” que jamais será desculpa para que se prossiga no pecado sob a alegação de que Deus irá perdoá-lo por si só, sem autêntico arrependimento, confissão e reparação.
O Senhor continua a dizer o mesmo hoje: Aborreço e desprezo os seus cultos; as suas festas e as suas assembleias solenes não me dão nenhum prazer. Ainda que me ofereçam qualquer tipo de oferta, não me agradarei delas, pois seus corações abrigam impureza e escondem pecados não confessados. Afastem de mim o som dos seus cânticos porque não ouvirei as melodias dos seus instrumentos, pois me são insuportáveis.
O salmo de Asafe, após expor os pecados do povo, finaliza: “Estas coisas tens feito e eu me calei; pensavas que eu era como tu. Mas eu te repreenderei e tudo porei à tua vista. Ouvi isto, vós que vos esqueceis de Deus, para que não vos faça em pedaços, sem haver quem vos livre” (Salmo 50:21-22 – AEC). Mais cedo ou mais tarde, todo pecado será exposto e quem resistir ao Espírito será feito em pedaços, pois o salário do pecado é a morte (Rm. 6:23).

ECO PROFÉTICO
A repreensão do Senhor a Judá e a Jerusalém continua a ecoar sobre a Igreja da era contemporânea. Quanto do sagrado tem sido misturado ao profano em nossos dias? Quantas palavras que são preceitos de homens, que contrariam inclusive as próprias Escrituras, adotados como costumes eclesiásticos para unir visões opostas ou para apaziguar o politicamente correto? Quanta condescendência com o pecado existe em todo lugar? Falta coragem para confrontá-lo, enquanto sobram desprezo e afronta aos mandamentos. Prefere-se agradar o homem em detrimento de agradar a Deus.
Quantas ofertas financeiras e materiais têm sido entregues como espécie de holocaustos modernos sem que haja sacrifício autêntico ou rendição interior, sem que haja contrição verdadeira de coração, como se aquelas pudessem substituir estas? Quantos corações obstinados ou de dura cerviz, cheios de vaidade, egocentrismo, soberba, disputas e de espírito contencioso estão continuamente na congregação dos santos sob a fachada da religiosidade?
O mesmo Espírito que inspirou Asafe, Amós, Isaías e Yeshua a expor o profano travestido de sagrado, nos dias antigos, continua a clamar hoje a muitos que se chamam seguidores de Cristo, que insistem em honrá-lo com seus lábios, mas cujos corações estão distantes de sua Palavra e de seu propósito. O Senhor continua dizendo: “o incenso, ou seja, a oração destes para mim é abominação”. Ou ainda: “quando estendeis as vossas mãos cantando louvores em vossas reuniões, escondo de vós os meus olhos”. É o mesmo Espírito, o mesmo Deus falando em todas as eras, em todos os séculos e a todas as gerações. É a mesma voz daquele que conhece e sonda cada coração.
O VERDADEIRO SACRIFÍCIO
No entanto, toda palavra profética termina em um tom de exortação paternal e esperança, pois Adonai Elohenu, o Senhor nosso Deus é único, rico em misericórdia e quer que todos os altares sejam restaurados. O caminho de volta consiste em fazer Teshuvá com um coração contrito.
Davi compreendeu isso mais do que ninguém. Ainda que seu pecado no caso de Bat Sheva fora gravíssimo, ao ser exposto, sua atitude foi de profundo pesar e arrependimento. É interessante que o salmo que escreveu sobre seu arrependimento — Salmo 51 — vem na sequência após o salmo de Asafe. É como se ele o tivesse lido antes de escrever o seu, tendo sido impactado por suas palavras. Assim, ele declara: “Não te comprazes em sacrifícios, senão eu os traria; não te deleitas em holocaustos. Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” (Salmo 51:16-17).
No final dessa haftará, o Senhor diz a seu povo: “lavai-vos, e purificai-vos. Tirai a maldade dos vossos atos de diante dos meus olhos! Cessai de fazer o mal, e aprendei a fazer o bem! Praticai o que é reto, ajudai o oprimido. Fazei justiça ao órfão, tratai da causa das viúvas (…). Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlate, eles se tornarão brancos como a neve” (v.16-18). Esta é a vereda da excelência, do verdadeiro e amoroso serviço a Deus e do sacrifício aceitável. Aquele que por ela anda obtém o favor do Senhor e permanece inabalável para sempre.

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