Noé e a Arca da Graça
A história de Noé é uma das mais fascinantes da Torá, capaz de cativar leitores de todas as faixas de idade, em especial as crianças. Entretanto, longe de ser uma história infantil, o registro das Escrituras é real e aponta para dois atributos divinos. De um lado, mostra um Deus gracioso e compassivo que age por misericórdia para com aqueles que invocam o seu Nome. Por outro lado, mostra um Deus justo que traz juízo sobre toda a carne. É sobre isso a história de Noé e a arca da graça de Deus, usada para salvá-lo com sua família e todos os animais que nela se refugiaram, bem como preservar a humanidade que criou.
O mal era tão grande na época de Noé a ponto de Deus se arrepender de ter criado o homem. “Isso lhe pesou no coração” (Gn. 6:6), quando, então, decide destruir a humanidade de sobre a Terra com o dilúvio. Não sem antes, reduzir o tempo de vida do homem para 120 anos (Gn. 6:3). A média de idade era bem superior a isso, pois Noé é mencionado no fim do capítulo 5 de Gênesis com 500 anos, quando surge a ordem de construir a arca. Quando veio o dilúvio, ele tinha 600 anos. Assim, Noé levou pelo menos 100 anos construindo a arca. A tradição, porém, afirma que o tempo de construção teria sido de 120 anos. Em outras palavras, sua construção teria durado todo o tempo de vida de uma geração.
Quando a Torá fala do nascimento de Noé, afirma que ele nos consolaria do trabalho de nossas mãos. Por que, então, o Altíssimo o encarregou com o fardo de um trabalho que durou toda uma geração? Essa pergunta feita por Rashi, na Idade Média, possui um comentário interessante na Mishnah. Quando os homens maus daquela geração viam Noé cortando cedro e fazendo a arca, aproximavam-se dele e perguntavam o que estava fazendo. Ele, então, explicava que Deus ordenara a construção da arca, pois traria o dilúvio, haja vista que eles suscitaram a ira de Deus com suas maldades. Quem sabe eles não se arrependeriam com essas palavras? Entretanto, aqueles homens maus não deram ouvidos a Noé, cumprindo a palavra de Provérbios 28:5 que, segundo os sábios, se refere à geração do dilúvio: “Os homens maus não entendem a justiça, mas os que buscam o Senhor a entendem plenamente” (Provérbios 28:5).[1]
Logo, aquela geração é indesculpável perante Deus, pois foi avisada e alertada todos os dias, por mais de um século, sobre o juízo iminente, mas preferiu não crer no aviso e permanecer no pecado. Você consegue estabelecer algum paralelo com nosso tempo? Não é à toa que Yeshua assemelha os dias do fim como sendo iguais aos dias de Noé. A mesma incredulidade no juízo vindouro existe hoje por toda a face da Terra. As pessoas zombam dos que creem e assim pregam, conforme a Palavra, e se recusam a se arrepender de suas más obras, exatamente como nos dias de Noé. No entanto, Deus é longânimo, aguardando que o homem mau ouça sua voz e faça Teshuvah, e estende o tempo da graça antes que venha o juízo, desejando que ninguém pereça. No tempo designado, porém, o juízo virá e será tarde demais para se arrepender.
Juízo sobre a violência
O motivo da destruição foi que “a terra estava corrompida diante de Deus e cheia de violência” (Gn. 6:11). A palavra violência aparece aqui pela primeira vez na Bíblia e seu original é hamas. Este é o mesmo termo que nomeia o grupo terrorista que assola a Faixa de Gaza e tem sido um dos principais inimigos de Israel no século XXI. Hamas foi a causa direta da destruição trazida pelo dilúvio. Esse também é um dos motivos da correlação estabelecida por Yeshua com os de Noé. Não apenas porque as pessoas estarão endurecidas pelo pecado e desapercebidas como nos dias que antecederam o dilúvio, mas porque a Terra também estará coberta de violência (hamas).
É interessante ressaltar que a história do dilúvio (Parashah Noach) foi a porção da Torá lida em todo o mundo na semana dos ataques do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, fazendo com que Israel entrasse em Gaza e iniciasse uma longa guerra. Curiosamente, a invasão do Hamas no dia 7 foi batizada pelos terroristas de “Dilúvio de Al-Aqsa”, o nome da mesquita que está na esplanada do Templo. Parece uma clara tentativa do inimigo tentar inverter o juízo de Deus contra a violência (hamas) no verdadeiro dilúvio dos dias de Noé.
O juízo, porém, pertence ao Senhor que julgará toda a Terra, não somente por sua violência, mas por toda a corrupção moral em que se afundaram as sociedades do mundo, tal qual no tempo de Noé. A propósito, o termo hamas carrega consigo um significado mais abrangente, segundo comentaristas judeus antigos. Eles descrevem que uma sociedade cheia de violência está consumida por injustiça, exploração, opressão, desonestidade e abuso de poder. Trata-se de uma humanidade não apenas violenta fisicamente, mas altamente destrutiva para com os homens entre si, em todos os níveis. Esse é o estado concreto das sociedades pelo mundo e não é mera coincidência.
Descanso e graça
Embora a Terra estivesse corrompida, a Torá faz questão de destacar o caráter de Noé. “Era ele homem justo e íntegro em suas gerações, e andava com Deus” (Gênesis 6:9). Noé é o único personagem por toda a Torá a receber o título de איש צדיק — ish tzadik (homem justo). Estar cercado de perversidade e iniquidade nunca foi justificativa para se deixar influenciar pelo mal. Os que temem ao Senhor sempre serão guiados por seus mandamentos, independentemente do ambiente em que vivam. Noé é o exemplo mais claro disso por todas as Escrituras.

Um fenômeno curioso é que, durante toda a obra que executou, a Torá não registra nenhuma palavra de Noé. Ele se mantém em silêncio, focado no trabalho que lhe foi confiado, sem murmurar do esforço que fazia nem da demora do dilúvio. Veja o contraste com Jonas (Yonah). Ele não só desobedeceu a Deus, ao não se dirigir para Nínive ao receber a primeira ordem, mas, após pregar na cidade, murmurou por não ter visto o juízo iminente que anunciara. Jonas também embarcou em um navio, mas em rebeldia e, por esse motivo, foi expulso dele, tendo de passar por grande aflição dentro do grande peixe. Noé, por sua vez, construiu a arca sem murmurar e entrou nela quando lhe foi ordenado, salvando a si, sua casa e todos os animais.
Noé permaneceu obediente e confiou em Deus todos os dias de sua vida. Mas é preciso dizer que Deus também confiou em Noé. Aqui cabe uma reflexão porque é fácil qualquer homem confiar em Deus ou, pelo menos, afirmar que confia nele. Entretanto, é difícil, muito difícil que haja alguém em que Deus confie. Essa é uma pergunta que deveríamos nos fazer continuamente. Deus confia em mim? Sou obediente a ponto de me entregar até a morte por Ele? Há poucos homens nas Escrituras em quem Deus tenha confiado e não tenha se decepcionado. Noé é um deles, assim como Abraão. Noé não decepcionou a Deus. Ele fez “conforme a tudo o que Deus lhe mandou” (Gn. 6:22).
O verso 8 resume a recompensa de Noé por andar em retidão perante o Senhor: “Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor”. O original, diz: נח מצא חן בעיני יהוה – Noach matzah chen b’einei Adonai. O nome Noé (נח) e o termo para graça (חן) usam as mesmas letras no hebraico, nun e chet, mas invertidas. Noé significa descanso, repouso. Graça transmite a ideia de favor imerecido. Os sábios antigos observaram muito bem que os nomes Noé e graça são imagens espelhadas uma da outra. Portanto, em meio à maldade e violência de todo tipo que nos circundam, é possível descansar em Deus com integridade e justiça, desfrutando de sua graça imarcescível.
Expiação e salvação
Não por acaso, a porção semanal correspondente dos Apóstolos à história de Noé abrange o capítulo 8 de Mateus, no qual é narrado o milagre em que Jesus acalma a tempestade. O barco em que estava com os discípulos era varrido pelas ondas, enquanto o Mestre dormia em paz até ser acordado por eles, aterrorizados pelo medo de um naufrágio. Ele repreende os ventos e o mar, trazendo bonança imediata.

Não há dúvidas de que o dilúvio trouxe temor para Noé e sua família. Após o juízo sobre a humanidade perversa, o Senhor também acalmou as águas e salvou todos que se encontravam na arca, fazendo com eles uma aliança. Há ainda um aspecto escondido no hebraico a respeito da história de Noé. Em Gênesis 6:14, Deus ordena que a arca seja revestida por dentro e por fora de betume.
O verbo usado para revestir é לכפר — lechaper — que significa cobrir, mas também expiar, limpar, conceder perdão. Sua raiz kapar כ-פ-ר é a mesma para kapporet, o propiciatório da arca da aliança sobre o qual era derramado o sangue do sacrifício no Dia da Expiação, Yom Kippur. A palavra kippur também compartilha da mesma raiz. A arca era um tipo do Messias, enviado à Terra para salvar a humanidade da ira vindoura, do juízo iminente. O ato de encobri-la com betume foi profético e aponta para a expiação de pecados e justificação pelo seu sangue de todo aquele que nele crer.
Tanto a história de Noé como a história dos discípulos estão interligadas. Na primeira, a arca era o tipo de Yeshua que salva quem nele confia, mesmo em meio ao dilúvio. Na segunda, Yeshua se faz presente no barco que também passa por uma tempestade e chega próximo ao naufrágio. Ele não impede os discípulos de passarem pela tormenta, mas livra-os de serem destruídos pelas vagas e pelos ventos, trazendo livramento como trouxe a Noé e sua casa. Ele continua sendo o mesmo refúgio para os que querem viver livres da corrupção e da violência que enchem o mundo em que vivemos, e que desejam encontrar graça a seus olhos, tal qual foi com Noé. Ele é a Arca enviada pelo Pai para resgatar a humanidade perdida.
[1] Aggadat Bereshit 1:2.
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